Intercâmbio de experiências agroflorestais

Matéria publicada originalmente na coluna Papo de índio do Jornal Pagina 20

Seis lideranças indígenas do povo Yine do Peru participaram, entre os dias 3 e 6 de agosto de 2015, do XXI Curso de Formação de Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs). Realizado pela Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre), o curso aconteceu entre os dias 13 de julho e 13 de agosto deste ano, contando com a parceria da Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC), com o apoio da Fundação Nacional do Índio (FUNAI, e com o patrocínio da Petrobras, por meio do programa Petrobras Socioambiental.
Os jovens indígenas do Peru vieram das Comunidades Nativas Monte Salvado e Puerto Nuevo, localizadas às margens do rio Las Piedras, em Madre de Dios, na fronteira com o Acre, e tiveram a oportunidade de trocar experiências e conhecimentos com os AAFIs. O grupo faz parte de um programa de formação de promotores agroflorestais, realizado pela organização não-governamental CARE-Peru. Os estudantes foram capacitados em 2013, durante um mês, no centro de pesquisa do Instituto de Investigaciones de la Amazonía Peruana (IIAP), em Puerto Maldonado, capital de Madre de Dios. Depois, eles voltaram para as suas comunidade para desenvolver o que aprenderam.

Durante os quatro dias de intercâmbio no Brasil, os Yine assistiram aulas com os agentes agroflorestais do Acre, conheceram os modelos demonstrativos de Sistemas Agroflorestais (SAFs) do Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF), e visitaram o Centro de Documentação e Pesquisa Indígena (CDPI), da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre).
A jovem Karla Aymar Sebastian Vargas, de 21 anos, que vive na comunidade Monte Salvado, fez uma apresentação sobre o Programa de formação de líderes indígenas em componentes chaves para o manejo integral do território. Ele explicou para os AAFIs suas experiências de atividades produtivas e de manejo agroflorestal nas comunidades Yine.
Para Wilson Sebastian Vargas, o impressionante foi saber que os AAFIs conseguiram o reconhecimento do Estado. “A gente não recebe um diploma. Também queremos ser reconhecidos pelo Estado peruano para ajudarmos mais as comunidades”, explica a liderança de 23 anos de Monte Salvado. “Seria bom que os intercâmbios acontecessem todos os anos para termos mais conhecimento do que acontece no Peru e Brasil”, completa.
Já para a liderança da Comunidade Nativa Puerto Nuevo, Raul Oswaldo Lopes Silvano, de 18 anos, o mais interessante foi conhecer o trabalho dos AAFIs com as piscigranjas. “O peixe é um alimento muito importante para a gente e queremos trabalhar com piscicultura. Gostei porque houve um troca sobre métodos entre a gente. Ha métodos de agrofloresta que são muito diferentes, mas outros bem parecidos também”, explica.
Para Elisabeth Chulla, especialista de CARE-Peru, que acompanhou os indígenas peruanos durante os quatro dias no CPFF, o intercâmbio foi enriquecedor para os jovens peruanos cheios de vontade de aprender. “Eles puderem ver a recuperação da floresta com os SAFs. Como as suas plantações ainda são recentes, agora eles já podem projetar como será o futuro nas suas comunidades caso continuem esse trabalho”.
O agente agroflorestal indígena do povo Huni Kuin Amiraldo Sereno, que apresentou a sua monografia no curso de formação deste ano achou a troca de experiências com os peruanos muito boa. “A gente viu um pouco das dificuldades dos indígenas de outro pais. Eles vieram ver a gente e agora a gente tem que ver como está a organização deles nas suas comunidades no Peru. Isso vai fortalecer e amadurecer o nosso trabalho aqui no estado do Acre. Temos que compartilhar o nosso trabalho porque somos povos transfronteiriços”.