Navegar é preciso viver

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Navegando no Iaco de Betel à Extrema, aldeias da TI Mamoadate – Foto: Lucas Sales

Nos últimos dois anos, fiz várias viagens ao alto Iaco, um rio de muitas voltas, estirões, praias sinuosas, lagos e barrancos altos. Um rio de vários tipos de peixes e de arraias, poraquês, jacarés e sucuris. Um rio de “águas brancas” que corre tranquilo no verão, mas no inverno vêm aos repiquetes. Um rio que banha uma floresta exuberante e bela, ainda bem preservada. Um rio de vertentes de águas cristalinas dos olhos d´água e nascentes, brotando na flor da terra de seus barrancos arenosos.

Um rio onde vivem os Manchineri, os senhores do Iaco, e os parentes Jaminawa, dois povos culturalmente tão distintos entre si, que até se entendem bem em português, quando compartilham suas festas, torneios de futebol e caiçumadas. Suas línguas são tão ou mais distantes do que a portuguesa e a alemã. Os Manchineri falam um idioma do tronco linguístico Aruak e os Jaminawa uma língua da família Pano.

Adoram jogar futebol, até suas mulheres batem um bolão, correndo desenfreadas atrás da bola. Cada aldeia que se preze tem campo de futebol e time próprio. São ainda amadores, mas jogam de uniformes e chuteiras.

Depois dos jogos reúnem-se numa ou mais casas da aldeia para beber caiçuma de macaxeira fermentada, tão bem preparada pelas mulheres Manchineri e apreciada por todos, inclusive pelos Jaminawa. A caiçuma é, sem dúvida, a cerveja nativa do Iaco. Sua distribuição coletiva fortalece relações de amizade, até mesmo duradouras, entre integrantes desses dois povos tão altivos do Iaco.

Família Manchineri do agroflorestal Julião, da aldeia Laranjeiras – Foto: Lucas Sales

Cuidam bem de suas águas e zelam cuidadosamente as suas vertentes, onde pegam água boa para beber, tomam banhos e lavam roupas. Dizem que só fazem suas aldeias nos locais onde existem muitos olhos d´águas, justamente para construírem as suas cacimbas.

Os povos do alto rio Iaco

Com extensão de 313 647 hectares, a TI Mamoadate é habitada atualmente por 1.100 indígenas, sendo cerca de 200 Jaminawa, moradores de Betel, Salão, Cujubim e Boca do Mamoadate, as quatro primeiras aldeias da terra indígena. E também por aproximadamente 900 Manchineri, distribuídos em suas doze aldeias, assim denominadas pela ordem de subida do rio: Peri, Jatobá, Santa Cruz, Laranjeiras, São Sebastião, Água Preta (antiga Terra Alta), Alves Rodrigues, Senegal, Cumaru, Cachoeira, Lago Novo e Extrema.

Não são muitos os casamentos interétnicos, embora não tenha observado preconceitos entre eles. Os Jaminawa são faladores e expansivos. Sua rapaziada gosta de pintar os cabelos, usa um corte bem punk e moderno e, contrariando os mais velhos, não respeita muito o alheio.

Já os Manchineri são mais tranquilos e contidos. Não gostam de mexer nas coisas dos outros, a não ser uma troca involuntária de sandálias havaianas dispostas aos montes junto às escadas de suas casas. “Manchineri é assim, se ele te pedir 15 espoletas emprestadas para fazer uma caçada e não usá-las, ele vem te devolver essa mesma quantidade de espoletas”, como disse o professor Marcos Matos.

Famosa e inesquecível cacimba do Iaco – Foto: Lucas Sales

Os moradores da Terra Indígena (TI) Mamoadate, nas cabeceiras do Iaco, são dois povos agricultores que cultivam seus roçados de terra firme e de praia, onde plantam muita roça, milho, arroz, feijão, batata, inhame, jerimum, melancia, banana e outros legumes. Os Manchineri plantam muita macaxeira, menos para a produção de farinha do que para transformá-la em saborosas caiçumas.

Também pescam com frequência, e cada vez mais, nos lagos e poços do Iaco, notadamente nos meses de “verão amazônico”, quando alguns de seus pequenos grupos de pescadores e caçadores fazem excursões às cabeceiras do rio, acima da boca dos igarapés Abismo e Moa, às vezes indo além da linha de fronteira com o Peru, para coletar ovos de tracajá enterrados nas praias e pescar de tarrafas e “de mergulho”, nas pausadas de seus poços e remansos fundos, bodes tronqueiras, jaus, dourados, jundiás, surubins e outros peixes grandes de couro, com seus fisgadores, bicheiros e zagaias.

Também aproveitam essas excursões às cabeceiras do Iaco tanto para caçar nas matas que circundam suas margens, quanto para fazer vigilância nos fundos da terra indígena, monitorando a presença de grupos Mashco Piro “isolados”, que transitam, notadamente nos meses de verão, pelas cabeceiras do Iaco e pelos seus igarapés Abismo e Paulo Ramos. E ainda investigam se os fundos de sua terra, na linha da fronteira Brasil-Peru, estão sendo invadidos por madeireiros e caçadores ilegais, bem como por traficantes de drogas e armas, um tráfico transfronteiriços que se intensifica cada vez mais na região peruana do entorno da TI Mamoadate.

Além de tarrafas, usam ainda malhadeiras e linhadas de anzóis, mas quase não utilizam mais os diferentes tipos de tingui, cultivados ou nativos, em suas pescarias atuais. Dizem que é para não contaminar e envenenar as águas do rio e de seus igarapés e lagos.

Se os Jaminawa preferem pescar e comer os seres das águas, adoram peixes, jacarés e sapos canoeiros, “os Manchineri gostam mesmo é de comer carne de caça grande, como queixada, porquinho, veado e anta”, como disse o professor Sebastião Batista Jaminawa da aldeia Boca do Mamoadate.

Por sua vez, os Manchineri têm fama de bons caçadores e são excelentes contadores de estórias de caçadas. “Caçador bom, txai, é matador de anta. É aquele que conhece bem as matas, as terras e as águas por onde andam as antas. Que sabe rastejar até encontrar e matar a anta deitada, cansada de tanto andar pela mata e de varar de um igarapé pra outro”, como ressaltou um caçador Manchineri da Extrema.

Às vezes até brinco, dizendo, meio receoso de ser mal interpretado, que as mulheres Manchineri mandam seus maridos e parentes próximos caçarem bem longe das aldeias, acampados nas cabeceiras dos igarapés, onde as caças são menos raras. Na verdade, não se trata de trocar carne de caça por sexo, como afirmam alguns pesquisadores a respeito de povos da família Pano, mas, no caso em questão, os Manchineri trocam carne de caça por caiçuma.

Grupo Mashco Piro “isolado” no alto Madre de Deus – Foto: José Carlos Meirelles

No entanto, hoje em dia, a falta de munição (bala, pólvora, chumbo, espoleta e cartucho) para seus velhos rifles 22 e espingardas de diversos calibres, proibida de comercialização em Assis Brasil e Iῆapari, cidades transfronteiriças muito próximas, vem transformando os seus cachorros em exímios caçadores. “Sem munição pra comprar na rua e sem cachorro bom de caça, não se come mais tanto assim carne de caça nas nossas aldeias. Agora só mata mesmo de terçado, quando os cachorros acuam as caças”, como lamentou um caçador da aldeia Peri.

São ainda criadores de gado, ovelhas, cabras, porcos, galinhas, patos e, por incrível que pareça, cavalos. E eles montam bem. São os índios cavaleiros do Iaco. Nunca vi tantos equinos reunidos assim em outras aldeias acreanas.

Enfim, os Manchineri do Iaco, com exceções de raros “mandingueiros” que moram nas cidades, são alegres, inteligentes e bem humorados, que zombam de todo mundo o tempo inteiro, colocando apelidos jocosos uns nos outros. E alguns deles ficam para o resto da vida, como num batismos de cura (padre).

Um dia desse a família da Mariana Samarrã veio nos visitar e conhecer a nossa casa aqui em Rio Branco. Perguntei o nome de seu pai, que mora atualmente na TI Cabeceira do Acre, e ele me respondeu assim: “Olha, txai, meu nome mesmo é José Samarrã Manchineri, mas todo mundo só me chama de Bode. Se falar Bode, já sabe, sou eu”. Adorei a sua simplicidade e bom humor.

Dona Nazaré Jaminaua, a excelente tecelã da aldeia Betel – Foto: Txai Tierri

As mulheres Jaminawa, a exemplo de dona Nazaré da aldeia Betel, são excelentes tecelãs, especialmente de suas redes confeccionadas com fios de algodão trançados. Comprei duas belas redes dessa senhora Nazaré, que ficam sempre penduradas preguiçosamente na varanda de casa. Agora só trabalho no computador em rede.

Já as mulheres Manchineri ainda hoje fazem as “festas de pintação da moça nova”, um ritual de passagem da infância para a adolescência, onde se toma caiçuma acervejada na cuia grande e se come muita carne de caça, substituída, hoje em dia, por carne de boi, devido às atuais dificuldades de caçadas. E, claro, aproveitam essas oportunidades de reunirem-se tantas pessoas de várias aldeias para organizar torneiros de futebol. À noite, depois de tanta comida e caiçuma o dia inteiro, a festa rola até pegar o sol com a mão. Nas suas aldeias, a gente sente tudo, menos solidão, tristeza e cara feia.

Foi muito bom navegar de novo no Iaco, de Betel, a primeira comunidade Jaminawa, até a Extrema, última aldeia Manchineri da terra indígena, mas paramos antes em Peri e Lago Novo. Nesta penúltima aldeia, justamente estava acontecendo a “festa de pintação” da jovem filha do Zezinho Manchineri, primeiro agente agroflorestal da TI Mamoadate, hoje trabalhando na Sesai, da cidade de Assis Brasil.

Por lá, me disseram que a “moça pintada” faz uma rigorosa dieta de um mês entre a primeira e a segunda menstruação, quando inicia a sua fase reprodutiva. No final desse período, a sua família começa a preparar a festa de transformação da menina em moça, agora capaz de fazer e de servir caiçuma para todos os seus parentes e convidados.

Na “festa de pintação” da filha da Joana Alves, sobrinha do Sabá Manchineri, na aldeia Alves Rodrigues, que pude acompanhar desde o início, observei que, no início da festa, para cada pessoa que a “moça pintada” distribuía caiçuma, ela também tomava a sua cuiada, até ficar inebriada. Depois suas ajudantes continuaram distribuindo a bebida fermentada, enquanto ela foi bailar com todo mundo, mas devidamente aconselhada a não “dar caneladas” para não ofender ninguém, inclusive seus pretensos pretendentes.

Nessa última viagem de quase um mês pelas aldeias do Iaco, apenas uma vez, na Extrema, tomamos o vinho forte da ayahuasca preparado pelo Lucas Sales e o Marquinho Matos, sob a supervisão do pajé José Sebastião Manchineri, conhecido como Barrão, que gentilmente ofereceu uma panela grande e o tapiri de seu terreiro para o “preparo do cipó”. A minha contribuição foi a de coletar a chacrona na floresta por duas vezes, a primeira junto com meu amigo Barrão e a segunda com o seu neto Sivaldo, também conhecido por Léo, recentemente escolhido para ser o agente agroflorestal da comunidade.

Enfim, foi a festa do cipó na noite de lua cheia. Contou com as presenças prestigiosas do pajé Barrão e de sua mulher, que cantaram algumas singelas canções da ayahuasca. Não mirei quase nada, mas senti a força do cipó no clarão da noite de “lua sol”, (ushe bari; ushe=lua e bari=sol), como os Huni Kuī chamam a lua cheia.

Os grupos Mashco Piro

A TI Mamoadate é ainda compartilhada por diferentes grupos Mashco Piro “isolados”, que os Jaminawa chamam apenas de “Mashco” e os Manchineri de “Yine Hosha Hajene”, que transitam sazonalmente pelas cabeceiras do Iaco e por seus igarapés Abismo e Paulo Ramos.

Por se tratar de “grupos isolados nômades” constituídos essencialmente por caçadores e coletores, sem roçados para cultivar e limpar, os Mashco se deslocam por uma extensa região de florestas banhada pelas águas dos altos rios Madre de Deus, Purus, Juruá e Ucayali, e de seus principais afluentes e tributários.

Segundo informações mapeadas por seu Teodoro Sebastián Monte, liderança Yine de Monte Salvado, as “trilhas de deslocamentos”, comumente usadas por diferentes grupos Mashco, passam pelas florestas de terra firme colinosas do alto rio Madre de Dios e de seus afluentes Manu, los Amigos, las Piedras e Tahuamanu. Deste último rio, adentram o território acreano pelos rios Chandless (Parque Estadual do Rio Chandless), Iaco (TI Mamoadate), Acre (Estação Ecológica do Rio Acre) e Envira (TI Kampa e Isolados do Rio Envira).

Para o seu Teodoro Monte, os Mashco Piro são, na verdade, Manchineri “aislado”, que optaram por viver em isolamento voluntário desse mundo capitalista cada vez mais globalizado, em decorrência de epidemias e das violentas “correrias” (“matanças organizadas de índios isolados”) promovidas, a partir do início do século passado, por bandos armados de caucheiros peruanos, muito deles contratados por seringalistas brasileiros para limpar as áreas de seus seringais “infestadas de índios brabos”.

Tais “correrias” não são apenas episódios de um passado longínquo e distante. Continuam ainda ocorrendo no presente século, agora protagonizadas por madeireiros, garimpeiros e caçadores ilegais, bem como por traficantes de drogas e armas de ambos os lados da fronteira, inclusive praticadas por grupos indígenas há muito tempo contatados. Lembro que, em 2004/05, os Ashaninka de Dulce Glória, última comunidade nativa do Alto Juruá peruano, fizeram uma “correria” contra um desses grupos Mashco Piro nômades. Mataram muitos deles (homens, mulheres, crianças e velhos), como uma represália e/ou vingança pela morte de uma mulher Ashaninka flechada pelos Mashco numa praia deserta do Alto Juruá, enquanto o seu pai e marido pescavam num lago próximo à boca do rio Vacapistea, um dos principais afluentes das cabeceiras do “Yurua”, como os peruanos chamam esse grande rio.

Teodoro Sebastián Monte mapeando as rotas de deslocamento dos Mashco no Vale do Madre de Dios, na oficina da aldeia Peri, em 2015 – Foto: Silvio Margarido

Despojos dessa “correria”, como arcos e flechas, colares e saiotes de dentes de macacos, usados pelas mulheres Mashco, chegaram até Rio Branco, trazidos pelo Francisco Pianko Ashaninka, então assessor indígena do Governo do Estado, que viajou até Dulce Glória para verificar o que, de fato, tinha acontecido por lá. Francisco disse que os Ashaninka do alto rio Juruá peruano mandaram buscar farta munição na cidade de Pucallpa e, depois de uma semana, foram rastejar até encontrá-los em um de seus acampamentos na área compreendida entre as cabeceiras dos rios Juruá e Envira, que são muito próximas. Cercaram todos os tapiris daquele acampamento e começaram a fuzilaria. Poucos Mashco conseguiram escapar com vida. O então assessor indígena ainda falou de um episódio macabro em que uma mulher Mashco levantava os braços, gesticulando e implorando por clemência, mas não foi poupada, levando um tiro à queima roupa.

Em depoimento dado ao professor Marcos Matos e a este escrevinhador, na primeira oficina de Peri em 2015, parcialmente transcrito abaixo, o seu Teodoro Monte fala do “tempo das correrias” e dos caminhos percorridos por distintos grupos Mashco Piro, que já começaram, segundo ele, a fazer os primeiros contatos com os seus parentes Yine de Monte Salvado, no alto rio de las Piedras. Com a palavra, o seu Teodoro Monte!

“Os parentes que fugiram dessas correrias e se esconderam nas matas das nascentes de rios e igarapés são chamados Mashco Piro. Mas, na verdade, eles são mesmo Manchineri. Por causa dessas matanças, eles novamente se esconderam. Não queriam saber de encontrar com pessoas mestiças, pois para os Mashco essas pessoas entravam na floresta e os matavam, ou iriam capturar e levá-los embora; os Mashco Piro formam vários grupos familiares. São grupos diferentes, formados por várias famílias extensas, com seus filhos e filhas casadas, genros, noras e netos. Mas esses grupos diferentes, de vez em quando, sempre se encontram e se visitam. Quando eles pedem coisas e você não dá, eles ficam brabos. Pedem cordas pra gente, das grossas e finas. As mais finas usam pra amarrar as pontas de flechas e usam cordas grossas pra subir nas árvores e pegar frutas. Usam uma faca de dentes de animal… Os parentes Mashco Piro isolados não comem peixes. Somente consomem carnes de caça, carnes de animais da floresta, como jabuti, veado, queixada, porquinho, capivara. Macacos comem muito pouco, consomem mais as aves. Matam muitas araras pra comer e tirar as penas para fazer adornos. Os Mashco Piro se embebedam com chicha de jenipapinho, que é uma fruta da mata bem branquinha por dentro, gostosa e bem azeda. Começam a tomar essa caiçuma forte de jenipapinho às sete horas da noite e vão até quatro horas da madrugada. Eles têm os seus tambores, que tocam e cantam quando estão bêbados. Cantam mulheres, homens e crianças. Costumam fazer essas festas nas praias do rio de las Piedras, próximas de nossa comunidade Monte Salvado. Eles usam o pênis sempre amarrado pra cima com envira fininha. E as garotas, as jovens, têm colares de sementes e dentes de macacos e de outros animais”, conforme assevera o seu Teodoro Yini no livro Etnomapeamento da Terra Indígena Mamoadate, de autoria dos Manchineri, publicado pela CPI/AC, em 2016, em parceria com o Projeto GATI.

Os Jaminawa e Manchineri falam as línguas dos “brabos”

É interessante observar que as línguas Jaminawa e Manchineri são as mesmas, ou senão muito próximas daquelas faladas pelos diferentes povos “isolados”, que ocupam e/ou perambulam por ambos os lados da fronteira Peru-Brasil, inclusive pelas florestas dos altos rios acreanos.

Já os Jaminawa afirmam que os “isolados do Xinane”, que fizeram os primeiros contatos com os Ashaninka de Simpatia, última aldeia da TI Kampa e Isolados do Rio Envira, em meados de 2014, por eles denominado Tsapanawa, é um dos clãs de seu povo. Alegam que suas línguas e histórias são tão próximas e parecidas, que só podem ter uma origem comum.

Decorridos pouco mais de dois anos de seus primeiros contatos no Alto Envira, os Jaminawa têm sido os seus únicos intérpretes e tradutores, especialmente junto aos servidores da Sesai e da Funai que trabalham na base Xinane da Frente de Proteção Etnoambiental Envira, para onde foram levados logo após os contatos iniciais na aldeia Simpatia. Naquela ocasião, a base Xinane, que estava desativada há quase dois anos, só foi reaberta com a presença desses indígenas de recente contato. Mas por lá não havia nem um pé de macaxeira para alimentá-los, sendo abastecidos pelos roçados dos Ashaninka de Simpatia, a duas horas de barco da foz do igarapé Xinane, onde fica aquela base da Funai..

Por outro lado, a língua Manchineri é tão próxima do idioma falado pelos Mashco Piro, que são considerados praticamente do mesmo povo. Como disse o velho Teodoro Monte, os Mashco Piro “são mesmo Manchineri”, que optaram por viver em isolamento voluntário devido às epidemias e às violentas “correrias” promovidas em ambos os lados da fronteira Peru-Brasil.

Enfim, as línguas Manchineri e Jaminawa são tão próximas dos idiomas falados pelos chamados “povos isolados”, que as presenças de seus integrantes, como intérpretes e tradutores, não deveriam faltar nas bases de proteção da Funai, especialmente nos dias de hoje, quando os próprios “isolados”, acuados e cercados por todos os lados, estão tomando a iniciativa dos primeiros contatos. Como diz o velho ditado popular, “quem não se comunica se instrubica”.

Aviso aos navegantes que esse papo continua no próximo domingo, falando sobre as atuais ameaças à TI Mamoadate, o corredor territorial dos povos “isolados”, os novos mapeamentos e, se tiver espaço, os vestígios de Mashco Piro no Parque Estadual do Chandless. Até lá e um bom domingo para todos.

VIATxai Terri Valle de Aquino
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