Formação de agentes agroflorestais e fortalecimento da cadeia de valor dos produtos agroflorestais: Viagem ao Povo Arara do Igarapé Humaitá

0
780
Comunidade da Aldeia Raimundo Vale após atividades de plantio direto e produção de mudas frutíferas, fevereiro de 2017

Durante este breve relato, a memória da viagem pelas águas dos igarapés Cruzeirinho do Vale e Nilo é aqui compartilhada. Esta experiência teve lugar na Terra Indígena Arara do Igarapé Humaitá, localizada no município de Porto Walter – Acre, reunindo Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs) e comunidades do Povo Shawadawa. Foi a continuidade de uma formação técnica, política e intercultural desses agentes, buscando fortalecer seus conhecimentos e práticas tradicionais de gestão territorial e ambiental junto as comunidades locais.

Entre meados de janeiro e fevereiro deste ano, época de inverno amazônico forte na floresta, com uma fartura de chuvas, frutas e caças; reuniu-se nesta Terra Indígena equipe formada por assessores da Comissão Pró- Índio do Acre, da Associação do Povo Shawadawa do Igarapé Humaitá (APSIH) e Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC). Com a participação em torno de 300 moradores das comunidades Arara, foi promovida assessoria técnica aos nove agroflorestais locais, visitas as suas respectivas aldeias e a possibilidade de intercâmbio de um AAFI Huni Kuĩ da Terra Indígena Kaxinawá Colônia 27.

A modalidade de assessoria, dentro da proposta de formação dos AAFIs, é uma prática educacional que possibilita o acompanhamento do trabalho do agroflorestal junto as suas famílias, destacando os desafios e potencialidades presentes na gestão dos recursos naturais e nas demais competências atribuídas a esta categoria. Competências estas como vigilância e monitoramento territorial, orientação e manejo dos sistemas agroflorestais (SAFs), dos modelos demonstrativos de produção agroecológica e articulação política dentro e fora de seus territórios. Já a modalidade de intercâmbio permite uma intensa troca de saberes entre os povos indígenas presentes, facilitando um diálogo sobre suas experiências e fortalecimento dos conhecimentos tradicionais.

No dia 16 de janeiro iniciou os trabalhos da assessoria. A primeira reunião foi com os AAFIs, lideranças e comunidade. A professora Paula apresentou os objetivos do trabalho, que era fazer o levantamento e diagnóstico dos SAFs, produção de mudas, plantio direto, tratos culturais como poda, em todas as comunidades e aldeias. Durante esse tempo fomos muito bem recebidos pelos parentes. Realizamos uma reunião com a presença do entorno, onde foi feita uma leitura do Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Arara do Igarapé Humaitá. A assessoria teve uma articulação forte entre os AAFIs e seus coordenadores e o acompanhamento dos caciques. Gostei muito de trabalhar neste intercâmbio com a nossa professora e com os parentes Arara, onde puder contribuir e também aprender muita coisa boa (AAFI Bina Huni Kuĩ – TI Kaxinawa Colônia 27).

No decorrer da assessoria, foram distribuídas 900 mudas de açaí touceira, acerola, cupuaçu, graviola, laranja e tangerina, além da produção de 2.400 mudas de frutíferas. As frutas são muito apreciadas e favorecem a segurança alimentar destas famílias, diversificando a dieta por meio do consumo de alimentos saudáveis e livre de agrotóxicos. Há um excedente desta produção agroecológica, possível de ser comercializado por alguns agricultores e agricultoras tanto nas escolas indígenas, quanto no município e no entorno. Uma via de comercialização é acessar políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), atendendo assim uma reivindicação frequente do movimento indígena: a merenda regionalizada. Porém estas políticas ainda demandam alguns desafios, para que de fato ocorram nas TIs do Acre.

Esta viagem integra o projeto “Cadeias de Valor em Terras Indígenas no Acre” através de recursos via Fundo Amazônia/ BNDES e tem como objetivo principal fortalecer a produção sustentável de quatro Terras Indígenas, por meio da organização e promoção da cadeia de valor dos produtos agroflorestais e da assistência técnica indígena. Nesta etapa do projeto, demos continuidade aos trabalhos desenvolvidos com o Povo Arara na assessoria ocorrida em junho de 2016, onde procuramos fortalecer as unidades demonstrativas de produção agroecológica como: viveiro de mudas florestais e frutíferas, sementeiras, hortas orgânicas, SAFs e quintais agroflorestais.

Finalmente no dia 12 de fevereiro, com uma grande celebração na Aldeia Raimundo do Vale, reuniram-se lideranças e boa parte das comunidades da TI para a distribuição às famílias de 45 kits completos para a produção de farinha, atividade esta de grande vocação do Povo Arara e que possibilita potencializar o acesso das famílias aos meios de produção.  

Hoje um dos focos maiores da nossa produção é a farinha. No caso da farinha, queremos fazer os nossos roçados com manejo, sem ter que desmatar muito a nossa terra. Dessa forma, teremos economia e sustentabilidade do nosso jeito de trabalhar, a favor do fortalecimento da nossa cultura. Podemos viver muito bem em nossa terra, usando a tecnologia para facilitar a nossa produção” (Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Arara do Igarapé Humaitá).