A contribuição dos Agentes Agroflorestais Indígenas para o fortalecimento da produção sustentável da Terra Indígena Alto Rio Purus

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Comunidade da aldeia Nova Mudança aguardando a chegada da assessoria (Fevereiro de 2017)

Após seis dias de viagem, subindo o Purus, rio largo e volumoso, principalmente pela época chuvosa; e de visita a várias aldeias para mobilizar e conhecer um pouco do trabalho desenvolvido pelos Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs), uma equipe da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre) chegou à aldeia Povo Vencedor para iniciar a assessoria aos AAFIs da Terra Indígena Alto Rio Purus, localizada no município de Santa Rosa do Purus, no Acre.

A assessoria, que é uma das modalidades da formação dos Agentes Agroflorestais, foi realizada em cinco aldeias e contou com a participação de Agentes Agroflorestais Indígenas de vinte e uma aldeias. Formando uma equipe heterogênea quanto à participação no processo de formação, por incluir AAFIs novatos, outros em processo de formação avançada e alguns já formados. A presença dos mais experientes foi muito importante para apoiar os mais novos durante a realização das atividades e nas discussões sobre o papel dos AAFIs e a responsabilidade destes com suas comunidades.

Foram desenvolvidas atividades visando o fortalecimento da produção agroflorestal e a atuação dos AAFIs nas aldeias, como parte da formação dos AAFIs e objetivo da assessoria. As principais atividades desenvolvidas em cada aldeia foram: implantação e enriquecimento de sistemas agroflorestais, construção de viveiro e produção de mudas, e prática de produção de hortaliças orgânicas, porém devido à época chuvosa foi realizada apenas uma pequena prática demonstrativa desta atividade. Foi um momento também de acompanhar, observar e ouvir a comunidade e os AAFIs sobre o que vêm desenvolvendo, tirar dúvidas e perceber as expectativas sobre a atuação dos agentes agroflorestais, além de outras discussões relacionadas ao trabalho dos AAFIs e à gestão territorial e ambiental.

Foram distribuídas mais de 2000 mudas de espécies frutíferas, sendo, açaí touceira, buriti, cacau, coco, laranja e 23 quilos de sementes de espécies nativas como açaí e bacaba provenientes do Centro de Formação dos Povos da Floresta. E teve a implantação e enriquecimento de cerca de 25 hectares de SAFs. Prévio ao plantio, durante a atividade de levantamento e diagnóstico houve a oportunidade de conhecer a alta diversidade dos SAFs e quintais agroflorestais presentes nas aldeias, trabalho de responsabilidade dos AAFIs juntamente com suas comunidades.

Essas ações foram realizadas por meio da parceria entre a CPI-Acre, a Organização dos Povos Indígenas Huni Kuĩ do Alto Rio Purus (OPIHARP) e a Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC), no âmbito do projeto “Cadeias de Valor em Terras Indígenas no Acre”, financiado pelo Fundo Amazônia/ BNDES. Cabe destacar a importância, mencionada pelos AAFIs e outros membros da comunidade, sobre esta parceria e do projeto mencionado. Por ter sido elaborado por organizações e associações indígenas e que estas estão trabalhando ativamente não só no planejamento das atividades, como também em toda a execução do projeto.

É uma alegria ver um projeto que foi escrito por nós e agora ver as atividades serem realizadas, ver a participação da nossa comunidade, que os AAFIs estão recebendo formação, que a assessoria pode chegar em nossas aldeias, ver o nosso trabalho e apoiar. Esse projeto foi escrito pensando em nossas necessidades, atividades que precisavam de incentivo. Pensamos em segurança alimentar, regionalização da merenda escolar, em ter peixes e quelônios, aumentar os SAFs, ter horta orgânica, melhorar nossa produção de mel e farinha. Fico feliz em ouvir os AAFIs.

Professor Antônio Napoleão Bardales – Aldeia Nova Mudança

Nos quase 30 dias, entre janeiro e fevereiro, em que os assessores permaneceram nas aldeias, tiveram a oportunidade de, além do trabalho técnico, disfrutar da culinária local, participar de festas de caçada, rituais, katxanawa e etc. Foi, possível também, conhecer ainda mais sobre a história da Terra Indígena, entender sobre o surgimento de novas aldeias, como estas estão planejando e se organizando e os trabalhos que estão realizando na gestão ambiental e territorial.

O AAFI Jorge Domingos destacou o trabalho dos AAFIs junto das comunidades para a gestão territorial: Com a demarcação do nosso território, tivemos que começar a ver formas de usar o espaço para produzir tudo o que necessitamos, daí começamos a trabalhar com os SAFs, pensamos em como cuidar dos nossos recursos para não faltar para os nossos netos. Agora estamos falando em regionalizar a merenda escolar, vender nossos produtos para a escola, não depender dos produtos da cidade. Tudo isso é trabalho do AAFI envolvendo as comunidades. E também fazer a vigilância da nossa terra, explicamos tudo isso para a comunidade.