A produção de alimento e a segurança alimentar na formação do Agente Agroflorestal Indígena

Segunda semana do XXIII Curso de Formação de Agentes Agroflorestais Indígenas

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Durante o período de 24 a 29 de julho de 2017, aconteceu a segunda semana do XXIII Curso de Formação dos Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs), realizado pela Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre), com o apoio do Fundo Amazônia/ BNDES, no Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF) em Rio Branco, Acre. Neste período foi dada continuidade ao módulo de Horta orgânica, e trabalhado junto com os AAFIs os módulos de Manejo e criação de animais domésticos e silvestres e Agrofloresta.

Os povos indígenas dedicam grande parte do seu tempo nas atividades de produção de alimentos. Tem trabalho no roçado, nos quintais e sistemas agroflorestais, como também organização para as pescarias e caçadas. Com o passar dos anos, as populações nas Terras Indígenas (TI) vem aumentando, mas o tamanho da terra continua o mesmo. Essa realidade gera uma pressão sobre os recursos naturais, diminuindo a oferta de peixes e caças para as populações e a necessidade de se pensar alternativas.

Desde o início da formação de AAFIs, estes foram incentivados a realizar diagnósticos e levantamentos das espécies existentes em suas terras, sejam animais ou vegetais. Durante os cursos os AAFIs realizam a sistematização dessas informações e conhecimentos tradicionais associados. Essa atitude investigativa dos AAFIs, geram informações e discussões que subsidiam muitas das decisões nos planos de gestão, principalmente relacionadas ao tema de manejo de animais silvestres, implantação de sistemas agroflorestais (SAFs), enriquecimento de áreas de plantios e produção de alimentos.

Manejo e criação de animais domésticos e silvestres

A criação de animais domésticos e silvestres faz parte da formação do AAFI, desde os primeiros cursos, e consequentemente é um dos temas presentes nos Planos de Gestão Territorial e Ambiental, que são acordos comuns estabelecidos pelas comunidades indígenas mediados pelo AAFI, procurando orientar o processo de autogestão de suas terras e recursos locais. Nestes planos, consta o interesse das comunidades pela criação de animais, aumentando assim a disponibilidade de carne e ovos para as suas famílias e o fortalecimento da segurança alimentar.

Como parte integrante do XXIII Curso de Formação, na segunda semana, os Agentes Agroflorestais Indígenas trabalharam com o módulo de Criação e Manejo de Animais Domésticos e Silvestres. O objetivo principal das aulas foi desenvolver um diagnóstico participativo da criação animal nas TIs e a partir deste, refletir sobre a formação e atuação do Agente Agroflorestal junto as suas comunidades, no fortalecimento destas atividades.

Foto: Daniel Villamil

Durante as aulas, a turma participou de visitas técnicas referente a criação de animais silvestres. Um dos locais visitados foi a Fazenda da UFAC, onde a professora e médica veterinária Vânia Ribeiro desenvolve projeto de pesquisa com mamíferos silvestres. Os AAFIs puderam visitar as instalações onde são criados capivaras, porquinhos do mato, pacas e cutias. Além disso, puderam acompanhar de perto o manejo da alimentação destes mamíferos e observar que toda alimentação fornecida é a mesma que os animais encontram quando em seus ambientes naturais.

O AAFI Milton Carneiro da TI Nawa, conta o que viu na visita à Fazenda da UFAC:

Foto: Daniel Villamil

Fomos para a visita técnica a fazenda da UFAC, onde encontramos em cativeiro 59 porquinhos do mato. Fomos ver como era o dia o dia desses animais; eles precisam viver separados porque brigam muito. Então no cativeiro tinham repartições para os grupos ficarem separados. Nesse lugar eles precisam de barro para tomar banho e a sua comida do dia a dia é a macaxeira, castanha, coco, melancia, milho, laranja, banana, patoá, bacaba e etc. Visitamos depois o cativeiro de paca, onde tinham um total de 56 pacas. Depois visitamos o cativeiro de capivara, onde moravam quatro capivaras.

Outra visita foi ao meliponário do agricultor agroecológico Clodoaldo, localizado no Belo Jardim II. Em uma área de 10 hectares, o agricultor consorcia 70 caixas de melíponas distribuídas entre os sistemas agroflorestais, ambiente este capaz de fornecer fartura de florada às espécies como uruçu e jandaíra. Os AAFIs puderam acompanhar junto ao agricultor, o manejo das caixas e degustar o mel de excelente qualidade e com propriedades medicinais produzido pelas melíponas.

O módulo encerrou com visita técnica ao criatório Estância Terra de propriedade do Valmir Ribeiro, onde está instalado o Projeto Tartaruga da Amazônia, um criatório comercial com diversos exemplares de tracajás e tartarugas da Amazônia. No local, o proprietário contou sobre sua experiência e que o foco da criação dos quelônios neste momento é a possibilidade de reintroduzi-los na natureza, objetivando a conservação destas espécies já ameaçadas de extinção nos rios do Acre. Há 28 anos a criação começou com 1.500 indivíduos e hoje conta com aproximadamente 150 mil. O criatório é inscrito na modalidade de criação comercial, possibilitando a venda de ovos e animais.

Foto: Tarik Argentim

A criação de animais domésticos e silvestres está presente em muitos dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas. A criação de animais em cativeiro visa fortalecer a segurança alimentar dos indígenas, já que alguns destes animais estão em situação de escassez em seus territórios.

Agrofloresta

Foto: Josy Oliveira

Nas aulas de Agrofloresta, foram realizadas algumas atividades mais voltadas para os AAFIs que estão iniciando a formação e participando de seu primeiro curso, e em atenção e com a colaboração dos AAFIs que já participaram de mais cursos, todos acabam sendo alunos e professores. Foram discutidos temas para nivelar determinadas atividades de manejo. Foi dada continuidade ao enriquecimento do sistema agroflorestal que se chama Castanheiro. Esse sistema foi implementado no ano passado, no curso com os AAFIs. E nos próximos cursos, durante um período de cinco anos, esse modelo, que é demonstrativo, e também é pedagógico, receberá atividades de manejo básicas, desde podas, cobertura morta, abertura de berço e discutir os nutrientes utilizados nos berços. Esse ano utilizamos esterco de boi, folhas de embaúba, paú e cinza nas atividades do plantio definitivo.

Foi realizado um pequeno manejo na área. Como estamos no período da seca, foram instaladas garrafas PET de dois litros com água, para irrigar as plantas. Foram feitos exercícios de observações para saber o período que a água dura na garrafa, para irrigar as plantas. Outra atividade realizada, que foi muito importante principalmente para os AAFIs novatos, foi a poda. A maioria não tem essa prática de poda. Foi feita atividade prática nos cítricos, em uma área próxima ao SAF Castanheiro, mostrando o básico da poda, como se poda um pé de cítrico. Também foram realizadas atividade de poda de cacau, somente para retirada de ladrões, em um cacaueiro que tem no Centro de Formação dos Povos da Floresta. O conceito discutido pode ser estendido a todas as espécies que são de poda.

Foram realizadas conversas sobre determinadas culturas que hoje é importante os indígenas implantarem, porque tem uma saída econômica, como é o caso do açaí. Foram discutidas sobre as terras que comercializam o açaí, a importância de ter sistemas onde se dê ênfase a essas espécies, que tem uma saída comercial, além ser um produto aceito pelas próprias comunidades, e rico em termos nutricionais também, e tem uma possibilidade de venda.

As discussões e as atividades práticas que os AAFIs realizaram durante o módulo de Agrofloresta, como é de praxe no curso, foram registradas através de desenhos e de um pequeno texto em língua indígena e língua portuguesa. Os textos são bilíngues, apenas os que não são falantes da língua indígena é que escrevem apenas em língua portuguesa, sendo estes minoria.

Foi um curso bem tranquilo e, como relatado, sempre há uma discussão maior, mais conceitual, junto com os agentes agroflorestais, pensando possibilidades e melhorias tanto na parte de produção de alimentos, como também já há hoje a possibilidade de gerar um recurso econômico com a venda desses produtos. Ademais, se discutiu muito sobre a função dos agentes agroflorestais indígenas.

Horta orgânica

Durante a segunda semana de curso, no módulo de horta orgânica foi trabalhado o manejo da horta com atividades específicas como o tutoramento de tomates, adubação, uso de cobertura morta, além dos cuidados com os insumos (biofertilizantes e biorrepelentes) produzidos na primeira semana de curso.

Foto: Josy Oliveira

Em cada aula são realizadas observações e anotações sobre o desenvolvimento da horta. Após as discussões, são realizados os manejos necessários e, quando necessário, de forma conjunta o grupo busca uma solução, como no caso de uma planta “doente”. Também foram levantadas informações sobre a produção de hortaliças nas terras indígenas, as espécies exóticas mais utilizadas, as hortaliças tradicionais, insumos que utilizam, manejos que realizam, quem realiza as atividades, e os diferentes modelos.

Foram discutidas questões como critérios de escolha da área, recursos disponíveis, diferentes modelos que podem ser utilizados, limpeza da área, necessidade de cerca, entre outros.

Sobre o tema trabalhado nesse período o AAFI Antônio de Carvalho Banê, da TI Nova Olinda, diz:

Dentro dos trabalhos de horta, o que eu acho diferente, na aldeia a gente trabalha diferente, com outros modelos. A gente trabalha mais com canteiros levantados, assim os nossos pais e avós costumavam fazer. Da forma que tá, elas aguentam um pouco mais no inverno. Tem vários modelos de horta, a minha eu fiz pequena, com o modelo do sol.

A minha só tem que regar mais no período do verão. A horta é um trabalho diário, agora a gente estava realizando alguns cuidados. Tem que ter cuidados na hora do transplante das mudas, com a limpeza do local, não pode ter materiais químicos, porque em horta não pode ter coisas químicas, tem que ser tudo natural, igual a gente trabalha aqui. Aqui o interessante é que não tem formiga, na nossa região tem muita formiga, a de roça. Na nossa comunidade a gente pode tá trabalhando junto com a escola, assim fica mais bonito, trabalhar junto com os alunos. Lá a gente faz as adaptações do que a gente discutiu aqui. No Centro de Formação é só um modelo demonstrativo.

Para cada tema trabalhado, além das discussões ao final da aula, onde os AAFIs mais avançados no processo de formação técnica apoiam tirando dúvidas e falando de suas experiências, também foram elaborados um texto e um desenho sobre a atividade por cada um dos agentes agroflorestais.

Ao fim da segunda semana do curso, foi realizada a Assembleia da Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas (AMAAIAC), como parte do módulo de Fundamentos políticos da função do AAFI. Momento em que além de refletirem e avaliarem o trabalho dos AAFIs, foi discutido também a composição da nova diretoria, que foi eleita em forma de consenso. Participaram da Assembleia da AMAAIAC, os 30 AAFIs que estão no XXIII Curso de Formação, outros 20 AAFIs, sendo a maioria já formados, a atual diretoria e algumas lideranças indígenas.

Links relacionados:

Artes, horta e arqueologia indígena

CPI-Acre realiza o XXIII Curso de Formação de AAFIs

http://www.ufac.br/site/noticias/2017/agentes-agroflorestais-indigenas-conhecem-projeto-da-ufac