Finalização do XXIII Curso de Formação de Agentes Agroflorestais Indígenas

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Entre os dias 14 e 18 de agosto de 2017, aconteceu a última semana do XXIII Curso de Formação dos Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs), realizado pela Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre), com o apoio do Fundo Amazônia/ BNDES, no Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF) em Rio Branco, Acre. Neste período foi trabalhado o módulo de Cartografia Indígena, a finalização do módulo de Horta orgânica, e Fundamentos e Diretrizes Políticas da Função do AAFI.

Cartografia Indígena

Desde o início da formação dos AAFIs a Cartografia Indígena vem sendo trabalhada para discutir os vários aspectos relacionados aos conhecimentos indígenas sobre o espaço geográfico, as paisagens e como os povos indígenas vivem, trabalham e se organizam sobre seus territórios, tendo os mapas indígenas como umas das principais ferramentas para realizarem a gestão territorial e ambiental de suas terras indígenas.

Foto: José Frank

Neste curso a introdução aos estudos da Cartografia Indígena, bem como da geografia indígena, relacionou os processos que formam as paisagens, especialmente aquelas transformadas pelas ações e trabalhos do agente agroflorestal em suas comunidades, com as estratégias de gestão, proteção e o manejo e uso dos recursos naturais em suas terras indígenas.

Foram elaborados mapas mentais das 19 terras indígenas apresentando as várias características territoriais e ambientais, além das ações discutidas em seus planos de gestão, como o monitoramento das ameaças de invasões (de caça e pesca), seus trabalhos de implantação e manejo de sistemas agroflorestais, seus projetos de criação de animais domésticos, entre outros.

Foto: José Frank

A prática de elaboração de mapas possibilitou não somente exercitar o que aprenderam sobre os elementos que podem constituir um mapa mental, mas também como a cartografia indígena permite a troca de conhecimentos entre os AAFIs, além das reflexões sobre a situação de suas terras indígenas em seus vários aspectos geográficos, e quais estratégias desenvolvem para a gestão ambiental e territorial.

Fundamentos e Diretrizes Políticas da Função do AAFI

Durante a última semana, o conteúdo de Fundamentos e Diretrizes da Função do AAFI, foi trabalhado de diversas formas. Parte deste módulo ocorreu em forma de reuniões e articulações entre os AAFIs e a diretoria da AMAAIAC, com diferentes instituições governamentais, como a Secretaria de Meio Ambiente de Estado do Acre (SEMA), a Secretaria de Planejamento (SEPLAN) e com representantes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que atualmente financia dois projetos da AMAAIAC. Os representantes do banco, puderam ouvir dos AAFIs e da AMAAIAC a importância dos projetos que foram aprovados, as expectativas das comunidades e saber que os projetos irão apoiar trabalhos que há tempos vem sendo desenvolvidos nas diferentes TIs. Também tiveram a oportunidade de conhecer os modelos demonstrativos do Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF) da CPI-Acre, sobre o processo de formação dos AAFIs e as modalidades que o compõe.

Outra forma trabalhada durante este módulo, foi quando os assessores técnicos da CPI-Acre promoveram discussões sobre as ferramentas relacionadas às modalidades da formação e atuação do AAFI. Um tema muito trabalhado, foi o Diário de Trabalho, com momentos para leitura e reflexão de diários de AAFIs já formados, como também para que cada Agente Agroflorestal presente no curso pudesse mostrar um pouco dos registros que faz no seu diário e do trabalho que vem realizando em sua aldeia e TI.

Na ocasião, a AMAAIAC fez o lançamento do livro Diários de Trabalho dos Agentes Agroflorestais Indígenas. Foi destacada a importância dos diários para a formação dos AAFIs e para que outras pessoas conheçam o trabalho do Agente Agroflorestal.

Os AAFIs foram estimulados a apresentarem os trabalhos que realizam em suas terras, relatando, apresentando fotos de seus modelos demonstrativos (SAFs e produção animal), de reuniões com a própria comunidade, com parceiros que apoiam sua comunidade, em reuniões fora da TI, e outras atividades do cotidiano. Esse momento serviu como uma troca de experiências e conhecimentos entre os AAFIs e assessores técnicos da CPI-Acre, que realizam viagens de assessoria aos AAFIs em suas TIs, uma das modalidades da formação.

Encerramento do XXIII Curso de Formação de AAFIs

No fim do curso, os AAFIs participaram de uma sessão especial de exibição da série Nokun Txai, produzida pela Saci Produções, em que um dos episódios é sobre os Agentes Agroflorestais Indígenas, e foi filmado durante o curso de AAFIs no ano passado.Fizeram um balanço sobre o período de formação que passaram no CFPF, e realizaram um jantar tradicional de encerramento do curso.

Foto: Saci Produções

A seguir, o XXIII Curso de Formação de AAFIs pelas palavras dos próprios AAFIs:

A gente tá finalizado mais um curso, um momento muito importante, de todos esses dias que nós passamos por aqui. É uma preocupação tanto dos professores com a gente para ensinar, também a gente tem preocupação nossa em aprender. Tem a preocupação porque às vezes a gente deixa a família da gente em casa, a gente fica sem saber muito como tá a situação por lá. Mas aqui nós estamos com os espíritos da floresta, unidos e com uma energia muito forte. Eu acredito que foi um curso que teve muitas coisas, teve coisas diferentes, que a gente respeita todas elas, teve muita concentração, agradeço todos os encontros. Teve muito trabalho, teórico e prático. Com isso a gente ganha muito mais, essas coisas são do interesse de cada um de nós, se a gente não tiver interesse, as coisas não vão para frente. No próximo ano temos que trazer mais fotos, mostrar e apresentar um pouco mais o nosso trabalho, como fizemos agora aqui, que está encerrando. Eu agradeço a todos os meus amigos e companheiros AAFIs, a gente tá se encontrando aqui, todos os professores que estiveram junto com nós, os técnicos, agradecer também às cozinheiras, que tiveram muita preocupação e cuidado com a gente, que se dedicaram para que a gente tivesse bem. Tem que agradecer ao casal de caseiros, que sempre estiveram se alegrando com a gente, o pessoal da limpeza, os que estavam cuidando do sitio. De modo geral, estou aqui junto com vocês, tenho as demandas, como nós todos temos. Temos que levar as demandas e tudo o que a gente acompanhou aqui, principalmente os projetos que estão acontecendo, para as nossas comunidades. Isso é muito bom e alegra mais as pessoas da nossa comunidade. Eu queria agradecer mesmo de coração, deixar meus sinceros agradecimentos a todos vocês. Que onde a gente se encontrar a gente vai tá cada vez mais se alegrando.

Tivemos os nossos professores indígenas, os nossos parentes, que muitas vezes são nossos professores na TI. Foi um ano que eu pude fazer novos parceiros e amigos, trabalhávamos como se fossemos irmãos. Agradecer a turma da CPI-Acre, que está aqui junto com nós, fazendo a nossa formação. Tivemos aula de artes e ofício, arqueologia indígena, horta orgânica, agrofloresta, manejo dos animais domésticos e silvestres, a nossa assembleia, matemática, ecologia indígena, cartografia indígena e as nossas reuniões e discussões. Quero agradecer a AMAAIAC, que tem apoiado a nossa luta pelo que é nosso, para lutar pelo nosso futuro e da nossa comunidade. Agradeço ao Maná que foi nosso presidente e agora é vice. E, no ano que vem eu quero estar aqui de novo e tá agradecendo novamente.

AAFI Ismael Menezes Brandão Shanenawa Siã, aldeia Shane Kaya, TI Katukina/Kaxinawá

Eu quero agradecer aqui o nosso trabalho, agradecer as pessoas que estão aqui, a CPI-Acre que tem dado essa formação para a gente, na teoria e na prática. Eu só tenho muito a agradecer pelos conhecimentos que eu aprendi, pelos saberes que vou levando, pelo que ensinei, pelos projetos que estão sendo apoiados para as terras indígenas, e tudo mais, eu gostaria de fazer um agradecimento geral, agradecer aos nossos professores indígenas formados, que estudaram aqui e vieram, ajudaram e contribuíram bastante para o nosso conhecimento.

AAFI Edimar da Silva e Silva Kaxinawá, aldeia Pupunha, TI Katukina/Kaxinawá

Nós estivemos aqui fazendo vários trabalhos, nós estivemos em sincronia, e não é diferente do que esperamos. Temos que tá refletindo, estamos abrindo muito espaço, para a Assistência Técnica e Extensão Rural Indígena. É importante que esses AAFIs novatos, que estão chegando agora, estejam registrando isso. Nós estamos nessa luta. Eu sempre penso nisso, temos que continuar cuidando da nossa TI, recuperando nossas áreas sagradas. Temos construídos viveiros nas nossas terras, fortalecido a comida tradicional, temos organizado intercâmbios de sementes, conhecido a realidade de outras aldeias e apoiado os nossos irmãos de outras TIs com os nossos intercâmbios e com os que a CPI-Acre tem promovido. Temos tirado muitas dúvidas, temos explicado o trabalho, fortalecendo mesmo, mobilizando para os trabalhos com a AMAAIAC e CPI-Acre. Isso tudo é importante. Tudo isso tem sido um fortalecimento para o trabalho dos AAFIs.

AAFI Antonio de Carvalho, aldeia Nova Olinda, TI Nova Olinda

Estamos aqui na finalização dos cursos, eu fui um dos coordenadores, fui o coordenador do grupo 1. Nosso grupo deu conta das nossas atividades, nós estivemos aqui trabalhando. Nós que estamos coordenando os grupos temos um compromisso, mas temos que lembrar que todos que vem das suas TIs já tem seus compromissos como AAFIs, representando nossas aldeias. O que a gente acha que não ficou bem, a gente leva essa reflexão para que não aconteça no ano que vem. Cada vez que eu venho aqui eu aprendo uma coisa nova com os professores e com os meus colegas, que são os outros AAFIs.

Quero dizer boa tarde a todos, agradeço pela oportunidade, pela saúde de todos nós, tanto professores como de nós AAFIs. Quero agradecer a todos os professores, de todas as matérias que nós tivemos estudando. Estou grato por mais um ano que estou participando desse curso, mais um aprendizado que tenho adquirido com os professores e colegas, teve o meu esforço, o nosso esforço, que demos conta de tudo. Agradeço pela continuidade da nossa formação, se não fosse a CPI-Acre, que tem escrito vários projetos, a AMAAIAC e o governo que em alguns momentos apoiou, não teria como a gente tá se formando, tendo o nosso ensino médio, garantindo a nossa formação. Agradeço todos os trabalhos e todos os colegas, a gente tá encerrando, 31 dias que estamos em curso. Quero agradecer a todos nós. Temos as nossas atividades que executamos, tem as que estamos levando. Temos que trazer de volta e apresentar aqui e mostrar que sempre estamos levando o nome da nossa escola.

AAFI Antonio Renildo Ninawa, aldeia Nova Aldeia, TI Igarapé do Caucho

 

Link relacionado:

CPI-Acre realiza o XXIII Curso de Formação de AAFIs