Centro de Formação dos Povos da Floresta

Em 1994, a Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre) adquiriu uma área rural de 26 hectares a 12 km do centro de Rio Branco com o propósito de sediar os cursos de formação oferecidos pela instituição que, até então, aconteciam em locais cedidos pelo Governo do Acre, na Fundação Cultural e nas dependências do Colégio Agrícola. Em 2002, a área foi ampliada com a aquisição de mais 5 hectares, totalizando 31 hectares.
A ideia, desde o início, era oferecer um local mais agradável aos índios que participavam dos cursos, mais próximo do ambiente das aldeias e que valorizasse os materiais da floresta e a estética indígena. A aquisição desta área também possibilitou que os participantes dos cursos de professores, agentes de saúde e, posteriormente, agentes agroflorestais, pudessem ter aulas práticas relacionadas à implantação de sistemas agroflorestais, entre outros sistemas demonstrativos e experimentais, e relacionados ao uso de técnicas e práticas de manejo ambiental. O novo espaço foi batizado de Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF).
Na época da compra desta área, ela continha um fragmento de mata com algumas seringueiras remanescentes do antigo seringal Nova Empresa. Entretanto, a maior parte constituía-se de campo e capoeira rala, ou seja, área degradada, ideal para se demonstrar a eficácia dos sistemas agroflorestais enquanto técnica para recuperação de solo degradado. A cada curso um novo sistema agroflorestal foi sendo implantado, experimentando-se diferentes espécies e técnicas de reflorestamento. Com isto, gradualmente foi sendo recuperada a integridade do solo e sua capacidade produtiva.
Hoje, a área do CFPF é composta, em boa parte, por áreas de florestas. Ao longo desse processo, os índios participantes dos cursos vêm experimentando, na prática, como é possível transformar uma área degradada em área reflorestada e produtiva.
Em consórcio com os sistemas agroflorestais, também foram implantadas unidades demonstrativas de criação de animais domésticos e silvestres apreciados nas culinárias indígenas, como quelônios (tartaruga e tracajá), peixes nativos, abelhas sem ferrão e várias aves domésticas (peru, ganso, galinha, codorna, pato). O objetivo dessas criações é oferecer alternativas para a produção de proteína animal sem a necessidade de desmatamento.
A principal finalidade da implantação de sistemas demonstrativos no CFPF é que eles sejam replicados nas aldeias. Portanto, há a preocupação de que eles de fato possam funcionar nas terras indígenas sem grandes dificuldades técnicas e aportes de recursos. Por exemplo, os peixes criados no CFPF não se alimentam de ração, mas das frutas que caem das árvores que foram plantadas em torno do açude e que, justamente, compõem o sistema agroflorestal denominado ‘Comida para peixe’. Este é um exemplo de experimento que deu certo e que contou com a participação dos estudantes indígenas ao longo de todas as etapas do processo e que, ao final, puderam comprovar os resultados.
Da mesma forma, também as práticas tradicionais indígenas de manejo ambiental são experimentadas. Alguns exemplos são a técnica dos Manchineri de manejo da palha para a cobertura de casa sem a derrubada da palmeira e a técnica dos Huni Kuĩ de plantio de buriti para fazer brotar água novamente em uma área onde já existiu uma nascente. Estas técnicas são incorporadas aos conteúdos curriculares da formação dos agentes agroflorestais e abordadas durante os cursos.
Para completar as unidades demonstrativas que compõem o CFPF é preciso mencionar ainda as hortas orgânicas, os viveiros de produção de mudas, a ‘estrada’ (caminho) medicinal/ herbário, o banco de sementes indígenas e uma pequena marcenaria para a confecção de móveis e esculturas com madeira reciclada. As esculturas, inspiradas em personagens mitológicos indígenas, são produzidas no âmbito dos cursos de agentes agroflorestais e já participaram de diversas exposições de arte no Acre e em outros estados. Elas fazem parte do projeto paisagístico do CFPF e encantam os visitantes. Todas as unidades demonstrativas que existem hoje no CFPF foram implantadas e manejadas como atividades dos cursos de formação.

A Escola Centro de Formação dos Povos da Floresta

O Centro de Formação dos Povos da Floresta é a primeira Escola de Formação de Professores Indígenas com uma proposta curricular de base intercultural, bilíngue e diferenciada oficialmente reconhecida no Brasil. Este reconhecimento se deu em 1997, através de uma portaria da Secretaria Estadual de Educação que autorizou o seu funcionamento (Portaria Nº 2322/97, posteriormente atualizada na Portaria Nº 3165/2007). O CFPF está registrado na Coordenadoria de Registro e Inspeção Escolar (CORINES), no livro Nº 3, folha Nº 35.
No ano seguinte, em 1998, a aprovação da Proposta Curricular Bilíngue Intercultural para a Formação de Professores Índios do Acre pelo Conselho Estadual de Educação do Acre (Resolução N° 05/1998) possibilitou ao CFPF titular professores indígenas em nível médio. Mais recentemente, em 2009, com a aprovação da Proposta Político-Pedagógica e Curricular de Formação Profissional e Técnica Integrada à Educação Básica de Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre, pelo Conselho Estadual de Educação do Acre (Resolução CEE Nº 236/2009 e Parecer CEE AC nº 101/2009), o CFPF também passou a titular em nível médio esta nova categoria social, o Agente Agroflorestal Indígena (AAFI).
O CFPF conta com uma estrutura física que foi se expandindo ao longo dos anos. Atualmente, a estrutura básica é composta por três alojamentos, cozinha, refeitório, almoxarifado e uma sala de aula central. O CFPF também abriga o Centro de Documentação e Pesquisa Indígena e um laboratório de práticas digitais e produção de materiais didáticos denominada ‘Casa dos Autores’.
A Casa dos Autores foi criada em 2003 para estimular a produção literária e de materiais didáticos nas línguas indígenas e em português pelos índios que participam dos cursos do CFPF, uma vez que as publicações de autoria indígena constituem uma importante ação da CPI-Acre. Ela é uma construção em formato de maloca, com mosaicos de azulejos inspirados em seres mitológicos indígenas e equipada com computadores e internet, entre outros equipamentos para a elaboração e editoração de livros.
A partir de  2009, o CFPF foi reconhecido pelo Ministério do Cultura como Ponto de Cultura. A Casa dos Autores, que além de atividades relacionadas à produção de materiais didáticos, também começou a sediar oficinas de edição de vídeo.
Hoje, o Centro de Formação dos Povos da Floresta é considerado uma das principais referências no Brasil na temática de formação indígena. Por este motivo, além dos índios que participam regularmente dos cursos, o CFPF também tem recebido pesquisadores e outros visitantes, incluindo índios de outros povos, que crescentemente vêm conhecer os cursos realizados no CFPF e aí se hospedam por períodos variados.
Atualmente, além dos cursos de formação de Agentes Agroflorestais Indígenas que acontecem anualmente e têm a duração média de seis semanas, a CPI-Acre também realiza outros eventos de cunho formativo de menor duração, como seminários e oficinas sobre temas diversos, como por exemplo, Políticas Públicas que afetam os povos indígenas, Convenção 169 da OIT, Mudanças Climáticas, Políticas Linguísticas, Dinâmicas de Fronteira e Desenvolvimento Regional, Produção de Material Didático & Ilustração. Normalmente, estes eventos são direcionados à lideranças e representantes de organizações indígenas, mas muitas vezes contam também com a participação de representantes de instituições parceiras.
O CFPF também sedia encontros como o Fórum dos Agentes Agroflorestais Indígenas, assembleias de organizações indígenas parceiras e diversos Grupos de Trabalho, como o Grupo de Trabalho Transfronteiriço Acre-Peru, que reúne povos indígenas e instituições dos dois países, o GT de Etnozoneamento, que reúne instituições públicas do Acre e organizações indígenas para discutir gestão territorial e ambiental, o GT Indígena da Comissão de Validação e Acompanhamento (CEVA) do Sistema Estadual de Incentivos a Serviços Ambientais (SISA), entre outros.
Desde a sua criação, em 1994, foram realizados no CFPF cerca de duzentos eventos voltados para a formação indígena, entre cursos, oficinas e seminários. A CPI-Acre tem a intenção de fortalecer cada vez mais o Centro de Formação dos Povos da Floresta enquanto centro irradiador de conhecimentos, técnicas e práticas agroecológicas dos/para os povos indígenas da Amazônia.