Além de ser a maior mobilização indígena do país, o Acampamento Terra Livre (ATL 2026) foi, neste ano, mais do que um espaço de luta.   O encontro também se consolidou como um importante espaço de formação e fortalecimento político para comunicadores indígenas do Acre, que buscam ampliar suas vozes e atuação nos territórios.

Realizado de 5 a 11 de abril, em Brasília, com o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, a 22ª edição do ATL reuniu milhares de indígenas de diferentes povos, fortalecendo na permanente e incansável luta por direitos, pela demarcação das Terras Indígenas e pela proteção das culturas e das florestas.

Dez comunicadores de cinco povos indígenas. Foto: Ila Verus

Este ano, os jovens comunicadores participaram de uma semana intensa de aprendizados. Foi realizada no ATL a 7ª Oficina de Comunicadores Indígenas do Acre, que contou com dez comunicadores dos povos Manxineru, Huni Kuĩ, Shanenawa, Nukini e Apurinã, e uma comunicadora mediadora.  O ATL foi uma verdadeira sala de aula, onde as plenárias se tornaram momentos de formação política sobre temas como educação, segurança nos territórios, demarcação de terras, mudanças climáticas, saúde e o enfrentamento à violência contra as mulheres indígenas.

A Oficina no ATL fez parte da Formação de Comunicadores Indígenas, uma iniciativa coordenada pela Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre), em parceria com o curso de Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac). Desde 2021, o projeto realiza formações presenciais que abordam produção de conteúdo para redes sociais e rádio, linguagem audiovisual, fotojornalismo, design e estratégias de engajamento.

A coordenadora executiva da CPI-Acre, Vera Olinda acredita que uma formação dentro do ATL vai gerar muito mais impacto do que em sala de aula, mesmo quando se trata de uma escola diferenciada. “Essa etapa da formação vai promover transformações importantes e fortalecer compreensões mais profundas na trajetória dos jovens comunicadores e das jovens comunicadoras. Para nós, não é somente uma história longa e consistente de formação, mas também a certeza de que é a educação que sustenta uma sociedade mais justa, mais consciente e mais assertiva na defesa e na manutenção das florestas, das línguas e da biodiversidade, apesar de hoje ter pouco investimento nas formações e escolas indígenas, colocou Vera,  que tem mais de 40 anos de indigenismo.

O ATL amplia esse processo formativo ao integrar prática e vivência sobre direitos e política. Diferente das oficinas, que já está em sua 7ª edição, o Acampamento possibilita o contato direto com lideranças indígenas de todo o país, com diferentes realidades e desafios, fortalecendo o papel dos comunicadores como agentes ativos na defesa dos direitos de seus povos. Este ano, além da escuta, da observação e da troca com indígenas de todo o Brasil, os comunicadores realizaram entrevistas, participaram das plenárias com falas durante os debates, filmaram, com a diferença de ter momentos definidos para sistematizar e avaliar o dia de estudo no Acampamento.

Marcha – “Demarca Lula: Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida.” Fotos: Ila Verus

O comunicador da Rede de Comunicadores Indígenas do Acre (RCIA), Ximery Apurinã, formado em História pela Universidade Federal do Acre, a experiência foi marcante: “O ATL, pra mim, principalmente nessa ida, foi realmente uma formação. Eu fui pra fazer vídeo, produzir material, mas também para esse encontro com parentes do Brasil inteiro. A gente vê diferentes realidades, muitas injustiças. Tem povos que nem território têm, que vivem no contexto urbano, forçados a deixar suas terras. Isso é muito duro. Ao mesmo tempo, fortalece a nossa aliança e nossa caminhada dentro do movimento. A gente se emociona, se enche de energia e força para continuar na luta.”

A comunicadora da RCIA, Rani Shanenawa da Terra Indígena Katukina\Kaxinawá também destacou o aprendizado: “Me senti feliz por viver esse momento histórico para nossa Rede. Mesmo já tendo participado antes, a cada ano aprendo mais. Este ano, por exemplo, entendi melhor os impactos do agrotóxico nos nossos territórios, como a contaminação da água. Também achei importante ver parentes se colocando como candidatos, fortalecendo a bancada do cocar. O ATL não é só luta, é também diversidade, cultura e espiritualidade. Me emocionei em vários momentos. Apesar do cansaço, saio com a luta ainda mais fortalecida e muito grata”.

Os comunicadores também participaram de outros momentos formativos em rodas de conversa com convidados que contribuíram para aprofundar o entendimento sobre o movimento indígena no Brasil. A coordenadora da CPI-Acre, Vera Olinda, abriu as atividades destacando a importância do ATL no processo formativo em comunicação e o poder da juventude pela manutenção dos direitos. A cientista social Danielli Jatobá apresentou o histórico do acampamento e sua importância política. Já o antropólogo Txai Terri Aquino abordou a formação dos territórios indígenas no Acre e reforçou o papel da comunicação como ferramenta de luta.

Além da atuação no ATL, integrantes da RCIA já participaram de eventos nacionais e internacionais, como o G20 Social, a Conferência Climática Regional de Juventudes Latino-Americanas (RCOY), a 30ª Conferência do Clima da ONU (COP30) e audiências públicas no Congresso Nacional.

ATL: histórico e participação do Acre

Criado em 2004, o Acampamento Terra Livre surgiu a partir de uma mobilização de povos indígenas em frente ao Ministério da Justiça, reivindicando a retomada do diálogo com o governo federal e avanços na política indigenista. Ao longo dos anos, o ATL se consolidou como o principal espaço de articulação política dos povos indígenas no Brasil. Neste ano, a mobilização ocorreu em um contexto de intensas disputas, marcado pelo avanço de propostas que ameaçam os direitos indígenas, como a exploração mineral em territórios tradicionais e iniciativas que colocam em risco a soberania sobre rios e florestas.

Este é o terceiro ano consecutivo em que a CPI-Acre promove a participação de comunicadores indígenas ao ATL, fortalecendo a formação política desses jovens em um contexto nacional. Além dos comunicadores, a instituição também apoiou a ida da delegação do Acre, liderada pela Manxinerune Tsihi Pukte Hajene (MAPTHA). Ao todo, cerca de 60 indígenas de 10 povos participaram da mobilização. (Comunicação CPI-Acre).