Por Vera Olinda Sena de Paiva, Xiú Shanenawa e Francisca Lima Costa Arara

No mês dedicado aos povos indígenas, diversas iniciativas são realizadas para dar visibilidade a pautas estratégicas no debate público sobre os direitos dos povos. Entre essas pautas, a participação e o fortalecimento das mulheres indígenas na na luta pela constitucionalidade, na gestão dos territórios e pelo próprio funcionamento das políticas públicas ganham cada vez mais relevância.

Foto: Ila Verus

Nos últimos anos, a presença das mulheres tem se ampliado em diferentes espaços, das comunidades às instâncias de decisão, indicando avanços importantes. Ao mesmo tempo, esse movimento traz à tona desafios que ainda exigem atenção, escuta e continuidade, especialmente diante das transformações em curso, nos territórios.

É a partir desse contexto que esta edição da Coluna Abril no Acre Indígena reúne as vozes de duas mulheres indígenas, FranciscaArara e Xiú Shanenawa, cujas trajetórias e reflexões ajudam a compreender, de forma concreta, essas transformações. Com funções de manutenção de conhecimentos indígenas (ensinam, mostram, fazem junto), o papel das mulheres em suas comunidades é essencial e está também ligado aos cuidados com a água, com a alimentação, com as sementes, os plantios e a colheita, além do funcionamento da casa na comunidade, integrando cultura e saúde de modo geral.

Esse papel é conhecido, apesar de nem sempre reconhecido. Também é conhecido que ele constitui um importante pilar de sustentação dos modos de vida de suas comunidades, mas ainda assim é necessária maior valorização e legitimação, tanto no contexto interno das comunidades quanto nas relações com a sociedade envolvente.

Hoje, graças ao esforço coletivo de um grupo de mulheres que amplificaram suas vozes e ideias, essa situação vem mudando. Diante de diferentes contextos e desafios, como a crise climática e o déficit de atenção do Estado em relação à educação escolar indígena, as mulheres estão reagindo e conquistando espaços na construção de soluções e alternativas para seus territórios. Mesmo sabendo que não é responsabilidade delas o não funcionamento de políticas públicas, sua atuação vai além da vida comunitária e ganha cada vez mais visibilidade no cenário político, social e ambiental do país.

Em termos concretos, no Acre Indígena, especialmente no âmbito da parceria da CPI-Acre com associações indígenas, lideranças, AAFI e professoras, a participação das mulheres cresceu consideravelmente em estratégias e agendas antes lideradas somente pelos homens: cresceu na agenda sobre mudanças climáticas, na comunicação, na formação em gênero e gestão financeira e na mediação de reuniões comunitárias — hoje há inclusive mulheres AAFI; cresceu no monitoramento territorial comunitário, na liderança de grupos de juventude nas terras indígenas, nos espaços de articulação interinstitucional e na participação em editais de projetos. Os cuidados com as mulheres e seu fortalecimento também fazemparte dos PGTA (Planos de Gestão Territorial e Ambiental).

Foto: Ila Verus

No entanto, se, por um lado, os esforços e a presença da mulher indígena crescem na luta por direitos e na gestão dos territórios em suas diferentes dimensões, por outro lado ainda há muito o que discutir, entendere reorganizar, para que o trabalho doméstico, igualmente importante e responsável por sustentar as comunidades, não entre em conflito com novas atividades e espaços que as mulheres querem ocupar —e vêm conquistando.

Sabe-se que, para qualificar essas transformações, ainda é necessário tempo, escuta, formação e aprofundamento das questões, para que a discussão de gênero e o fortalecimento das mulheres resultem em compreensão, acordos, equilíbrio e parcerias internas. É importante também fortalecer redes de apoio e diminuir tensões, para que as mulheres não fiquem sobrecarregadas.

No Acre, informações mostram que o fortalecimento das mulheres gera melhor e maior produção de comida e artesanato, contribuindo para o crescimento da renda. Gera também diversidade, mais justiça, inclusão, acolhimento e inovação nos territórios. Somando-se a outras experiências em todo o Brasil, informações apontam que gênero e fortalecimento das mulheres são chave para a manutenção de direitos, para a proteção dos territórios e para a vida em todas as suas dimensões. Consolidar essa compreensão é uma esperança para o bem viver.

Xiú Shanenawa e Francisca Arara, duas expoentes mulheres indígenas e colaboradoras desta edição, trazem uma qualificada compreensão dessas questões a partir de suas trajetórias e experiências. Em abordagens diferentes, mas complementares, revelam as transformações em curso, assim como os desafios que ainda persistem. Suas falas reafirmam não apenas a importância do fortalecimento das mulheres nos territórios, mas também a necessidade de um trabalho contínuo de enfrentamento das desigualdades de gênero, ainda presentes em diferentes contextos, dentro e fora das comunidades. Por elas, reafirmamos nossa admiração e nosso compromisso em contribuir com o fortalecimento das mulheres nos territórios, como parte de um trabalho que busca enfrentar desigualdades e ampliar caminhos de participação e reconhecimento.

Francisca Arara, Secretária Extraordinária dos Povos Indígenas do Acre e primeira mulher indígena a ocupar a pasta, destaca a importância da escuta direta junto às lideranças, mulheres e jovens, e reafirma que o reconhecimento da cultura e o direito de permanecer no território são conquistas de uma luta:

Foto: Ila Verus

Hoje existe floresta tropical no mundo graças ao nosso trabalho, o trabalho dos povos indígenas, dos territórios indígenas, dos povos indígenas e dos parceiros também, das políticas públicas que vêm nos apoiando, da sociedade civil… nós temos aqui no Acre a Comissão Pro-Indígenas do Acre! Ela é pioneira em valorizar os conhecimentos tradicionais, em formar novas lideranças…” … “Nós queríamos ser vistos no Acre, porque antes nós tínhamos que deixar de ser índio para virar branco.”

Nos territórios está tendo a maior festa [por ocasião do Dia dos Povos Indígenas], que é respeitar, valorizar, manter nos territórios, cuidar dos territórios, porque nossas lideranças lutaram para demarcar os territórios indígenas e hoje nós temos que cuidar. Nós precisamos vir para a cidade se for em cima do planejamento, se vier estudar, mas a gente não pode estar migrando…”
“É a primeira vez que tem uma mulher indígena na frente da gestão pública, cuidando, valorizando, respeitando, dialogando. O nosso trabalho é feito através de escuta com os territórios, com as lideranças, com as mulheres, com os jovens, porque nós não podemos fazer política em gabinete”.

Xiú Shanenawa, coordenadora da Sitoakore, evidencia as tensões desse processo ao refletir sobre as contradições entre discursos de inclusão e práticas que ainda excluem, silenciam e desvalorizam a presença das mulheres indígenas em diferentes espaços. Sua fala reafirma a importância de fortalecer organizações e garantir que suas vozes sejam respeitadas, sem mediações ou apropriações.

Foto: Ila Verus

…Hoje, vivo, sinto e enfrento, todos os dias, as contradições de uma sociedade que fala de inclusão, coletividade e respeito, mas que, na prática, ainda se sustenta no oportunismo e na exclusão. É doloroso perceber que, muitas vezes, a presença das mulheres indígenas só é desejada quando convém, quando há algum tipo de vantagem, visibilidade ou benefício a ser extraído. Se servimos, somos chamadas. Se não, somos descartadas. Invisibilizadas. Ignoradas. As mesmas vozes que discursam sobre direitos, equidade e fortalecimento das mulheres são, muitas vezes, as primeiras a nos desvalorizar, a nos silenciar e a nos colocar à margem. Isso não é coletividade. Isso é incoerência. É impossível não sentir revolta ao perceber que ainda há quem tente ocupar nossos espaços, falar por nós, se apropriar da nossa cultura, da nossa identidade, do nosso nome, do nosso povo. Isso é violência. Isso é apagamento. E o racismo estrutural segue vivo — nos olhares, nas atitudes, nos gestos. No cumprimento seguido de mãos higienizadas com álcool quando viramos as costas. No descrédito sobre a capacidade de uma mulher indígena. No capacitismo, no preconceito, na exclusão silenciosa. Em espaços onde deveríamos ser ouvidas, como grupos e coletivos, nossas pautas são ignoradas. Falamos sobre mulheres indígenas e o que recebemos de volta é o silêncio. Um silêncio que também é uma forma de violência. Por isso, escolho me retirar de espaços que não me representam. Espaços que falam muito, mas não praticam. Não cabe mais permanecer onde não há respeito, compromisso e verdade. No mês das mulheres, reafirmo: nós existimos, resistimos e seguimos. Vamos fortalecer as organizações indígenas que verdadeiramente nos representam. Vamos acordar, nos unir e continuar ocupando nossos espaços com dignidade e coragem. Que possamos buscar conhecimento, estudar, nos fortalecer — porque o conhecimento abre caminhos e nos torna ainda mais livres para lutar. Seguiremos sem medo. Nada por nós, sem nós.”

Entre conquistas e desafios, o protagonismo das mulheres indígenas segue se afirmando como um movimento fundamental para a proteção dos territórios e para a sustentação dos modos de vida. As transformações em curso revelam avanços importantes, mas também apontam para a necessidade de continuidade, escuta e compromisso, para que os caminhos abertos se consolidem de forma justa e equilibrada.

 

Fotos: Ila Verus