A formação é composta por seis módulos, organizados em três blocos. O primeiro bloco, realizado entre os dias 27 de julho e 8 de agosto no Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF), reúne os módulos 1 e 2.

CAPGestão Indígena e Extrativista no Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF). Foto: Ila Verus
Fortalecer a gestão das organizações comunitárias é cooperar também com a autonomia dos povos indígenas e das comunidades extrativistas. Em um cenário marcado pelos desafios das mudanças climáticas, pela necessidade de ampliar o acesso às políticas públicas e de consolidar iniciativas sustentáveis nos territórios, investir em formação significa criar condições para que as próprias comunidades conduzam seus processos de desenvolvimento, geração de renda e proteção de seus modos de vida. Com esse propósito, que está acontecendo a primeira formação da iniciativa CAPGestão Indígena e Extrativista no Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF) da Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre).
O CAPGestão é uma iniciativa voltada ao fortalecimento dos conhecimentos de gestão de organizações comunitárias indígenas e extrativistas. A proposta busca contribuir para que associações, cooperativas, coletivos e lideranças ampliem suas habilidades de planejamento, administração, elaboração de projetos, acesso a políticas públicas e comercialização de produtos da sociobiodiversidade. Dessa forma, a formação fortalece empreendimentos comunitários e promove maior autonomia econômica e organizacional nos territórios.
A formação é composta por seis módulos, organizados em três blocos. Entre os dias 27 de julho e 8 de agosto de 2026, acontece o primeiro bloco, que reúne os módulos 1 e 2. Participam dessa etapa lideranças indígenas, Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs), professoras e professores indígenas, representantes de Conselhos Escolares Indígenas, agentes indígenas de saúde das Terras Indígenas Mamoadate, Nukini, Kaxinawá Nova Olinda, Jaminawa Arara do Rio Bagé, Kaxinawá Ashaninka do Rio Breu, Arara do Igarapé Humaitá, Igarapé do Caucho e Alto Rio Purus, produtoras e produtores das Reservas Extrativistas Chico Mendes, Alto Juruá e Arapixi, além de representantes da Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas do Acre (SEPI), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) de Boca do Acre e de uma expressiva participação da juventude, fortalecendo a formação de novas lideranças comprometidas com seus territórios.
Neste primeiro bloco, contamos com diálogos facilitados pelas equipes da CPI-Acre, do Projeto Bioeconomia para Florestas, da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Acre (Emater/AC) e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Apresentação das instituições presentes na formação: GIZ, SOS Amazônia, ICmbio, SEPI e CPI-Acre. Foto: Ila Verus
O primeiro módulo é dedicado ao fortalecimento das cadeias produtivas da sociobiodiversidade, promovendo debates sobre estratégias para agregar valor aos produtos da floresta, ampliar mercados e fortalecer iniciativas econômicas comunitárias. Já o segundo módulo aborda o acesso às políticas públicas, com foco em programas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), instrumentos fundamentais para ampliar a comercialização da produção da agricultura familiar, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais.
Mais do que uma formação técnica, o CAPGestão promove um espaço de intercâmbio entre povos indígenas e comunidades extrativistas. Ao compartilhar experiências, desafios e soluções construídas em diferentes territórios, os participantes fortalecem redes de cooperação, trocam conhecimentos sobre gestão, agregação de valor e comercialização de produtos da sociobiodiversidade, reafirmando a floresta em pé como base para o desenvolvimento sustentável.
O intercâmbio é uma metodologia de formação adotada pela Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre) há décadas e integra diferentes processos formativos desenvolvidos pela instituição. A proposta parte do princípio de que a aprendizagem se fortalece na articulação entre teoria e prática, permitindo que os participantes conheçam de perto iniciativas bem-sucedidas, dialoguem com seus protagonistas e reflitam sobre estratégias que podem ser adaptadas às realidades de seus próprios territórios.
Como parte dessa metodologia, no dia 5 de agosto, a turma do CAPGestão realizou uma visita técnica à Cooperação Agroextrativista do Acre (Cooperacre). A atividade possibilitou aos participantes conhecer de perto a experiência de uma organização que reúne cooperativas de extrativistas e agricultores familiares da Amazônia acreana, referência no fortalecimento das cadeias produtivas da sociobiodiversidade. Durante a visita, o grupo conheceu a estrutura de beneficiamento, os processos de gestão, comercialização e organização da cooperativa, ampliando a compreensão sobre modelos de empreendimento coletivo que agregam valor à produção e geram renda de forma sustentável.
Essa aproximação entre indígenas e extrativistas também dialoga com uma trajetória construída há décadas pela CPI-Acre, que atua no fortalecimento das organizações comunitárias, da gestão territorial e ambiental, da formação de lideranças e da valorização dos conhecimentos tradicionais. Ao reunir diferentes sujeitos da floresta em um mesmo processo formativo, a iniciativa amplia possibilidades de articulação e construção coletiva em defesa dos territórios e da sociobiodiversidade.
Para Alberlândia Maciel da Silva Kaxinawá, da aldeia Porto Alegre, na Terra Indígena Kaxinawá Nova Olinda, a formação representa um importante instrumento para fortalecer a autonomia das comunidades.
“Essa formação fortalece o nosso território e a autonomia dos povos indígenas. Ela traz conhecimentos sobre organização, administração e gestão das nossas comunidades, contribuindo para o desenvolvimento dos territórios e para a proteção dos nossos modos de vida. É um aprendizado que fortalece cada comunidade e ajuda as lideranças a conduzirem melhor seus processos.”
Já Kacielen Ingrid Marques da Silva, moradora da colocação Porongaba, na Reserva Extrativista Chico Mendes, em Xapuri, destaca a importância de levar as informações aprendidas para sua comunidade.
“O conhecimento que estamos adquirindo aqui vai fortalecer muito o trabalho na minha comunidade. Quero compartilhar informações sobre o Cadastro da Agricultura Familiar (CAF), explicar como ele funciona e mostrar as oportunidades de acesso ao PNAE. Muitas famílias ainda não conhecem essas políticas e elas podem representar novas possibilidades de geração de renda e fortalecimento da produção local.”
Para Vera Olinda de Sena Paiva, coordenadora executiva da CPI-Acre, a formação vai além de competências na área de gestão e geração de renda. Segundo ela, o processo contribui para consolidar parcerias, ampliar o acesso a políticas públicas e reafirmar que o desenvolvimento dos territórios deve estar orientado pelo bem-viver.
“Esta formação fortalece as organizações comunitárias e contribui para estruturar o acesso a políticas públicas como o PAA e o PNAE nos territórios. Ao reunir indígenas, extrativistas, que são jovens professores, Agentes Agroflorestais Indígenas, mulheres e diferentes instituições parceiras, ela amplia o intercâmbio de experiências e fortalece redes de cooperação. Mais do que uma formação técnica, é um processo aplicado, que gera compromissos e responsabilidades compartilhadas. Mas o mais importante é que entendemos que a geração de renda não pode estar acima do bem-viver. Ela precisa caminhar junto com o fortalecimento das culturas, das línguas, da saúde, do acesso à água potável, da alimentação saudável e da proteção dos territórios. É essa visão que orienta esse trabalho.”
A coordenadora do Programa de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da CPI-Acre, Elke Lima, destaca que o CAPGestão oferece ferramentas para que as comunidades transformem esse fortalecimento em ações concretas de gestão.

Coordenadora do Programa de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da CPI-Acre, Elke Lima. Foto: Ila Verus
“O CAPGestão fortalece a capacidade das comunidades de gerir seus territórios com autonomia. A proposta é ampliar a compreensão sobre os desafios e as oportunidades presentes nesses contextos, para que as organizações possam tomar decisões conscientes, planejar suas ações e fortalecer suas cadeias produtivas de forma alinhada à proteção dos territórios e aos seus modos de vida.”
Para Claudia de Souza, diretora do Projeto Bioeconomia para Florestas da GIZ, a formação representa um avanço ao integrar povos indígenas e comunidades extrativistas em um mesmo processo de aprendizagem:
“Reunir indígenas e extrativistas em uma mesma formação amplia a troca de experiências e fortalece estratégias voltadas à valorização dos produtos da sociobiodiversidade. Nossa expectativa é que esse processo contribua para ampliar o acesso às políticas públicas e gere mais oportunidades de renda para as comunidades, sempre em sintonia com a conservação dos territórios.”
A formação integra uma estratégia de fortalecimento de capacidades para a gestão de empreendimentos comunitários e para a ampliação da comercialização de produtos da agricultura familiar, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, contribuindo para que esses grupos ampliem sua autonomia, fortaleçam suas organizações e consolidem iniciativas sustentáveis em seus territórios.
A iniciativa é realizada pela CPI-Acre, em parceria com associações indígenas, SOS Amazônia e o Projeto Bioeconomia para Florestas, implementado pelo ICmbio, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e a Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ). (Comunicação CPI-Acre)

