Turma de Agentes Agroflorestais Indígenas no Centro de Formação dos Povos da Floresta, em 2005. Foto: Eliane Fernandes

Há 30 anos, os povos indígenas no Acre iniciavam uma experiência que seria um divisor de águas para o fortalecimento e o planejamento de seus territórios, além de dar origem a novas gerações de lideranças: a formação dos Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs) deu origem a uma nova categoria profissional.

O primeiro curso, realizada em 1996, em parceria com a Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre), foi uma experiência pioneira, que reuniu um grupo de 15 indígenas. A partir daquele momento, a formação passou a acontecer anualmente, consolidando-se como um processo contínuo de formação que, hoje, reúne 294 agentes, entre formados e em formação, de mais de 14 povos indígenas do Estado do Acre: Huni Kuĩ, Ashaninka, Yawanawa, Puyanawa, Noke Ko’í (Katukina), Jaminawa Arara, Nukini, Manxineru, Jaminawa, Kuntanawa, Apolima Arara, Nawa, Shanenawa, Shawãdawa (Arara).

Em três décadas de atuação, o processo formativo  ganhou corpo, relevância e reconhecimento, partindo das comunidades indígenas para todo o Brasil. Hoje, os AAFIs atuam em diferentes frentes, contribuindo para iniciativas de recuperação ambiental, através da implantação de sistemas agroflorestais, viveiros de mudas, bancos de sementes, manejo e conservação dos recursos naturais, proteção de nascentes, recuperação de áreas degradadas, e fortalecimento da segurança alimentar, além de participar de ações de planejamento e gestão territorial.

No entanto, trinta anos depois da primeira turma, o principal desafio passa a ser político: como garantir que a formação e os próprios AAFIs, com muitos já em vias de se aposentar, tenham asseguradas as condições necessárias para seguir fortalecendo esse trabalho e protegendo seus direitos?

Uma formação que nasceu dos territórios

AAFIs realizam pesquisa sobre espécies de plantas. Foto: Acervo CPI-Acre

AAFI Neurides Napoleão da Terra Indígena Mamoadate. Foto: Ila Verus

O plantio sempre fez parte da vida dos povos indígenas. Abrir roçados, selecionar sementes, produzir mudas, manejar a floresta e cuidar das plantas medicinais são conhecimentos transmitidos de geração em geração. Muito antes da criação de políticas ambientais, esses povos já desenvolviam formas próprias de manejo e conservação dos recursos naturais.

A partir desses conhecimentos e das demandas apresentadas pelas próprias comunidades que surgiu, em 1996, a formação dos Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs). Desde o início, a proposta era fortalecer a gestão ambiental e territorial das Terras Indígenas (TIs), promovendo o diálogo entre os saberes tradicionais e novos conhecimentos voltados às necessidades de cada território.

Ao longo desse processo, os próprios AAFIs, junto às suas comunidades, passaram a desenvolver diagnósticos territoriais, mapear recursos, identificar desafios e construir estratégias para a proteção e o fortalecimento dos territórios. Essa experiência deu origem aos primeiros Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs), hoje reconhecidos nacionalmente como instrumentos fundamentais para o planejamento e a gestão das Terras Indígenas. No Acre, os PGTAs emergiram diretamente dos processos de formação dos AAFIs e influenciaram iniciativas que posteriormente se expandiram para outras regiões do país.

Para o geógrafo e pesquisador Renato Gavazzi, conselheiro da CPI-Acre, que por duas décadas coordenou a formação dos AAFIs e ainda hoje acompanha essa trajetória, os agentes agroflorestais se consolidaram como protagonistas dos processos de gestão territorial e ambiental desenvolvidos pelos povos indígenas do Acre:

O Agente Agroflorestal Indígena consolidou-se não apenas como uma liderança local, mas como um profissional profundamente comprometido com a promoção e a defesa de práticas sustentáveis de manejo e conservação da biodiversidade em seus territórios.”

A formação dos AAFIs manteve sua proposta original ao longo dos anos, mas também acompanhou as transformações vividas pelas comunidades indígenas, incorporando novos temas e desafios. O que inicialmente estava mais relacionado ao fortalecimento dos sistemas produtivos e à conservação ambiental, passou a incluir temas como cartografia indígena, monitoramento territorial, gestão da água, recuperação ambiental, enfrentamento às mudanças climáticas.

A aposta continua sendo na educação

Não é possível contar a história dos 30 anos de formação dos Agentes Agroflorestais Indígenas sem falar da trajetória da CPI-Acre. Fundada em 1979, a organização surgiu em um contexto marcado pela invisibilidade dos povos indígenas, pela negação de seus direitos territoriais e pela exploração das famílias indígenas nos seringais acreanos.

Desde então, a CPI-Acre atua em parceria com os povos indígenas, desenvolvendo processos de formação baseados na valorização dos conhecimentos tradicionais, no diálogo intercultural e no fortalecimento da autonomia dessas populações. Ao longo de sua trajetória, a organização consolidou uma forma de atuação pautada na escuta, na troca de conhecimentos e na construção coletiva de soluções para os desafios enfrentados por essas comunidades.

A organização teve um papel fundamental na construção e no fortalecimento desse processo educativo, tanto no que diz respeito às metodologias quanto ao próprio espaço físico. Em 1994, a CPI-Acre criou o Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF), uma escola que passou a ser a sede da formação dos AAFIs, assim como de diversas oficinas, cursos e encontros. Reconhecido desde 2009 como escola de ensino médio profissionalizante para a formação desses agentes, o CFPF é muito mais do que uma “sala de aula”. Seus sistemas agroflorestais, viveiros e áreas demonstrativas funcionam como laboratórios vivos de aprendizagem, onde os estudantes desenvolvem experiências que podem ser reproduzidas em suas comunidades.

Vera Olinda, coordenadora executiva da CPI-Acre. Foto: Alexandre Cruz Noronha

Segundo Vera Olinda Sena de Paiva, coordenadora executiva da CPI-Acre, a experiência construída com os AAFIs ajudou a consolidar uma atuação que, hoje, também envolve outros segmentos, como jovens comunicadores, mulheres e lideranças indígenas, além de iniciativas de fortalecimento institucional.

“A formação dos AAFIs é central na ação indigenista da CPI-Acre. As ações de formação valorizam os conhecimentos indígenas geram novos saberes, sistematizam experiências e contribuem para o diálogo intercultural. Tudo isso nos leva a acreditar que a educação é um caminho para as transformações e deve ser valorizada pelo Estado. A CPI-Acre mantém essa essência: a formação, a autoria indígena e a valorização das culturas.”

A coordenadora destaca ainda que a formação continua se renovando ao dialogar com as novas gerações e com os desafios contemporâneos enfrentados pelos territórios indígenas.

“Estamos trabalhando com o futuro, no sentido da permanência dos direitos e do respeito à territorialidade. É um trabalho incessante para garantir apoio, reconhecimento e financiamento para toda essa trajetória”. 

Atualmente, a formação integra o ensino médio técnico-profissionalizante e possui duração aproximada de sete anos. Os AAFIs aprofundam conhecimentos em agrofloresta, ecologia indígena, cartografia, arqueologia, mudanças climáticas, gestão territorial, letramento digital, matemática, língua portuguesa, e artes ofícios. As atividades combinam cursos presenciais, oficinas nas Terras Indígenas, assessorias técnicas, atividades práticas nas aldeias e intercâmbios entre diferentes povos.

A história do AAFI Adriano Macario Sales Kaxinawá, da aldeia Nova União, Terra Indígena Kaxinawá do Seringal Independência, ajuda a compreender um dos resultados mais duradouros da formação dos AAFIs.

AAFI Adriano Macario Sales Kaxinawá, da aldeia Nova União, Terra Indígena Kaxinawá do Seringal Independência. Foto: Ila Verus

Filho de Josimar Pinheiro Sales, integrante da primeira turma formada em 1996, Adriano cresceu acompanhando o trabalho do pai e aprendendo, na prática, o cuidado com a terra e com o território. Hoje, ele atua ao lado de seu pai.

Eu trabalhei com o meu pai e aprendi com ele. Gostei do trabalho de AAFI e, agora, me sinto muito orgulhoso de poder fortalecer, daqui para frente, o futuro do nosso território.”

A trajetória de Adriano é um exemplo concreto de que a formação continua produzindo efeitos muito além do período formativo, preservando conhecimentos, práticas e compromissos que se seguem às novas gerações.

Mulheres que também constroem essa trajetória

A partir de 2023, a formação de Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs) passou a ampliar a participação das mulheres, como parte de uma estratégia da CPI-Acre para fortalecer o protagonismo feminino e garantir que elas estejam presentes nos diferentes espaços de formação, atuação e decisão.

Hoje, três mulheres estão em formação, representando os povos Manxineru, Shawãdawa e Yawanawa. São três trajetórias que carregam muito mais do que o desejo de aprender: carregam a força de seus povos, de suas famílias e de seus territórios. Cada uma delas representa um começo — e, ao mesmo tempo, abre uma porta para que muitas outras mulheres possam, também, ocupar esses espaços.

Porque toda transformação precisa que se tenha o primeiro passo.

Para fortalecer e garantir a participação das mulheres na formação de AAFIs, a CPI-Acre criou a Bolsa AAFI Mulher, uma iniciativa pensada para reconhecer e apoiar a presença feminina nesse processo. A bolsa considera as diferentes realidades vividas pelas mulheres indígenas, muitas delas mães, cuidadoras e responsáveis por atividades fundamentais para a vida e a segurança alimentar de suas comunidades.

A participação das mulheres na formação de AAFIs também significa reconhecer que muitos dos conhecimentos e práticas que sustentam os territórios já fazem parte de suas vidas. Cuidar da horta, do roçado, das sementes, das plantas e da alimentação da família e da comunidade são saberes construídos e transmitidos ao longo de gerações.

Para Jéssica Yawanawa, Agente Agroflorestal da Terra Indígena Rio Gregório, a entrada das mulheres na formação de AAFIs é extremamente importante, justamente porque o trabalho desenvolvido pelos Agentes Agroflorestais Indígenas dialoga profundamente com conhecimentos e práticas que muitas mulheres já exercem cotidianamente em seus territórios, além disso, destaca que ocupar esse espaço significa muito mais do que participar de uma formação: significa fortalecer a própria voz, valorizar os conhecimentos ancestrais das mulheres e abrir caminhos para as novas gerações.

Jéssica Yawanawa, Agente Agroflorestal da Terra Indígena Rio Gregório. Foto: Ila Verus

“Quando uma mulher ocupa esse espaço, ela não está representando somente a si mesma, mas também sua comunidade, sua família e todas as mulheres que vieram antes dela. Nós temos conhecimentos e saberes que precisam ser valorizados. Quando passamos a ocupar esses espaços, ganhamos mais voz, confiança e força para cuidar do nosso território e da nossa floresta. E, principalmente, mostramos para as meninas e para as futuras gerações que elas também podem ocupar esses lugares, fortalecer sua voz e lutar pelo nosso povo e pelo nosso território.”

Esse movimento já ultrapassa as salas de formação e alcança os espaços de representação da categoria. As mulheres passaram a integrar a diretoria da Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC), ocupando lugares de decisão e contribuindo diretamente para os caminhos da organização.

A presença dessas mulheres representa uma conquista, mas também anuncia um futuro.

30 anos depois, o reconhecimento profissional ainda é pauta da luta indígena.

Desde 2021, a Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC) vem defendendo o reconhecimento formal da profissão, a criação de mecanismos específicos de contratação e a realização de concursos públicos diferenciados, voltados aos povos indígenas.

Para Renato Gavazzi, o principal desafio atual já não está em demonstrar a importância dos agentes agroflorestais para os territórios, mas em garantir que esse trabalho seja reconhecido pelas políticas públicas. “Para que o trabalho dos agentes agroflorestais seja consolidado e ampliado no Estado do Acre, é fundamental que as políticas públicas incorporem o reconhecimento profissional desses agentes como gestores ambientais e extensionistas rurais.”

Renato Gavazzi, pesquisador e conselheiro da CPI-Acre. Foto: Ila Verus

Segundo ele, a discussão sobre o reconhecimento profissional está diretamente ligada ao futuro da gestão territorial indígena no Acre.

As comunidades indígenas continuam a arcar com os custos sociais e ambientais da proteção territorial, sem reconhecimento, sem remuneração e sem garantia de direitos.”

E acrescenta: “Não é possível conceber nem implementar, de forma efetiva planos de gestão territorial sem o reconhecimento institucional daqueles que, há três décadas, vêm prestando serviços contínuos às suas comunidades.”

Os Agentes Agroflorestais Indígenas não vão deixar de trabalhar pela proteção de seus territórios, pela conservação da floresta e pelo fortalecimento de suas comunidades. Tampouco a CPI-Acre deixará de oferecer o apoio que estiver ao seu alcance. Mas, depois de três décadas de formação e atuação, permanece  evidente que os benefícios da formação podem crescer exponencialmente com implementação de políticas públicas adequadas. Avançar no reconhecimento profissional dos AAFIs é fundamental para definir os próximos capítulos de uma experiência que, há 30 anos, contribui para a continuidade dos modos de vida e para a autonomia dos povos indígenas do Acre.

A ausência de recursos próprios para a realização dos cursos de formação é um dos exemplos de como essa luta ainda depende, ano após ano, da articulação com parceiros e da busca por recursos. Como explica Elke Lima, atual coordenadora do Programa de Gestão Territorial e Proteção Ambiental (PGTA):

Elke Lima, atual coordenadora do Programa de Gestão Territorial e Proteção Ambiental (PGTA) da CPI-Acre. Foto: Ila Verus

“Durante esses 30 anos de formação, a CPI-Acre buscou, ano a ano, recursos para a execução dos cursos de formação. Às vezes tem recurso, às vezes não. Às vezes tem um curso por ano, às vezes tem dois, e nenhum desses recursos está garantido. A CPI-Acre pleiteia recursos para que esses cursos aconteçam. Este ano teremos o 37º curso de formação, e todos eles foram realizados sem recurso próprio e com a ajuda de parceiros. Entre esses parceiros está, por exemplo o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, a Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas (SEPI), que tem sido fundamental tanto na colaboração para a execução dos cursos de formação quanto no apoio às bolsas de formação, executadas financeiramente pela AMAAIAC, por meio das quais os agentes agroflorestais recebem bolsas durante o período de formação.”

Avançar no reconhecimento profissional dos AAFIs, portanto, não significa apenas formalizar uma ocupação. Significa reconhecer uma trajetória de três décadas de formação, trabalho e compromisso com a gestão dos territórios indígenas. É também garantir que uma experiência construída pelas próprias comunidades tenha condições de se fortalecer e de orientar os próximos capítulos da gestão territorial e ambiental dos povos indígenas do Acre. (Comunicação CPI-Acre)