Por Ila Verus

Todos os anos, durante todo este mês, temos uma programação de publicações do Abril no Acre Indígena, uma iniciativa que acontece desde 2009. Com a partida do querido Txai Macedo, a Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre) presta homenagens a quem muito fez por essa instituição e pela causa que ela defende.

Coube a mim, essa grandiosa oportunidade de escrever sobre o Txai Macedo. Eu, de uma geração mais nova de jornalistas, que o conheci através do que era escrito sobre seu trabalho, mas que tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente em suas andanças pela CPI-Acre. Durante a viagem das gravações do filme Expedição Txai, realizada em parte em maio de 2025, na TI Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo tive o privilégio de conviver mais perto dele. No filme, refazemos o trajeto realizado em setembro de 1989 por Milton Nascimento, na histórica viagem ao Acre, experiência que inspiraria o álbum Txai. Essa vivência ajudou o cantor a conhecer as histórias dos povos do Alto Juruá e a compreender que o rio ditava o curso daquele lugar.

Txai Macedo ao lado de Milton Nascimento, em 1989. Fonte: Marcos Terena

Vi de perto o amor e o olhar dos Txai Macedo e Terri Aquino por aquele território e pelos povos indígenas. As lembranças nos guiaram pelo rio e pelo roteiro do diretor Tiago Melo, fio condutor dessa narrativa revivida mais de trinta anos depois, ainda com a presença dessas figuras centrais no filme e na construção de políticas de direitos territoriais para os povos da floresta.

A nova versão traz outros rostos e evidencia a presença de Vera Olinda, atual coordenadora da CPI-Acre, deixando uma mensagem clara: o protagonismo das mulheres no indigenismo acreano e na construção dessas lutas. Lutas que têm nomes de importantes mulheres, como Nietta Lindenberg, Dedê Maia, Concita Maia, Keilah Diniz, D. Piti, Erundina Kaxinawa, Maira Smith, Malu Ochoa. O filme também apresenta rostos da nova geração, como Siã Huni Kuĩ, Samsara Nukini, Ximery Apurinã e Ila Verus.

Txai Macedo foi rio

Desde menino, Rio Muru acima, conduzindo canoas, remando com o corpo ainda pequeno, mas já atravessado por um destino maior. Entre cantos e remadas, aprendeu cedo que a floresta fala, e que é preciso saber ouvir. Filho de Tarauacá, foi moldado pelas águas e pela mata, tornando-se parte inseparável desse território.

Antônio Luiz Batista de Macedo, o Txai Macedo, foi sertanista, indigenista e um dos pioneiros na construção da política indigenista no Brasil. Foi uma das primeiras pessoas na luta com os povos indígenas, adentrando a mata, conhecendo e escutando quem mais sabe sobre  lutas e floresta. Mas, antes de qualquer título, foi um homem da floresta, daqueles que não apenas passam por ela, mas pertencem a ela.

O nome que o acompanhou por toda a vida carrega um sentido profundo. “Txai”, palavra do povo Huni Kuĩ, que nas línguas Pano, significa “cunhado” ou “cunhada”, mas que no Acre, tornou-se algo muito maior, um aliado, alguém que é mais que amigo. E foi assim que ele viveu, sendo parceria e presença para os povos da floresta.

Sua história começa em 7 de maio de 1952, na Colocação Bagaceira, às margens do Igarapé Pau Caído. Ainda criança, dos três aos oito anos, viveu na aldeia Kaxinawá da Foz do Igarapé do Caucho, onde foi criado segundo os costumes indígenas. Mais tarde, dos oito aos doze anos, tornou-se seringueiro na Colocação Currimboque, assumindo cedo o peso e a responsabilidade do trabalho na floresta.

Sua infância foi feita de travessias, inclusive uma que marcou sua memória, a mudança em uma caravana de canoas subindo o Rio Muru por onze dias, onde ele conduzia uma canoa de galinhas. Mesmo criança, sua resistência já anunciava a forma como vivia a floresta e seus povos.

Entre histórias de onças, encantados e mistérios da mata, cresceu vendo as injustiças do sistema seringalista, o cativeiro, a exploração, a ausência de escola. Ainda menino, compreendeu o peso da desigualdade, e a necessidade de transformá-la. Seu pai, Raimundo Batista de Macêdo, foi seu primeiro mestre. Mateiro experiente, ensinou-lhe não apenas a sobreviver na floresta, mas a pensar o mundo, onde incentivou a leitura e o conhecimento, fazendo-o narrar histórias, aprender geografia e refletir sobre a chamada “descoberta” do Brasil. Assim, o Txai Macedo cresceu entre dois mundos, o saber tradicional dos povos da floresta e o conhecimento formal. Essa travessia o transformaria, mais tarde, em um mediador entre universos que compreendia, pois os viveu, os das terras indígenas e das reservas extrativistas.

Nos anos 80, emergiu como uma liderança fundamental no Acre. Foi um dos fundadores da CPI-Acre, instituição indigenista fundada em 1979 e atuou ao lado de nomes como Chico Mendes, Terri Aquino e Mauro Almeida, fortalecendo a luta pelos direitos dos povos indígenas, seringueiros e comunidades tradicionais. Foi um dos idealizadores da Aliança dos Povos da Floresta, uma articulação histórica que uniu diferentes segmentos em torno de um mesmo projeto, garantir vida digna para as pessoas da floresta, sem destruí-la.

Mais do que resistir, Txai Macedo ajudou a propor caminhos, participou da construção da base legal que possibilitou a criação das reservas extrativistas, contribuindo para a formulação de uma legislação ambiental que mudaria o Brasil. Em 23 de janeiro de 1990, esse sonho coletivo se concretizou com a criação da Reserva Extrativista do Alto Juruá, a primeira do país. Um marco histórico que carrega, em sua origem, a força de muitas mãos, entre elas as de Txai Macedo, Terri Aquino, Chico Ginú, Mauro Almeida, Mary Alegretti e Antônio de Paula no Vale do Rio Juruá, em diálogo com lideranças como Chico Mendes e Wilson Pinheiro, no Vale do Rio Acre.

Sua vida sempre foi marcada pelo compromisso com os povos e com a floresta viva, e esse comprometimento levou, por muitas vezes, risco à sua vida. Em setembro de 1991, quando subia o rio Juruá com um grupo de moradores da recém-criada reserva, Txai Macedo parou para comprar alimentos para a viagem. Na saída do estabelecimento, foi atacado por um homem alto que desferiu um soco e, em seguida, puxou a arma, atirando duas vezes. O mais surpreendente foi que a arma falhou com seis balas no gatilho, não havia explicação técnica, mas talvez uma explicação divina, de quem acreditava na força da Rainha da Floresta. Esse não foi o único episódio, mas talvez o que mais marcou.

O rio continua

Txai Macedo nas gravações do filme – Expedição Txai, em Marechal Thaumaturgo, em maio de 2025. Foto: Ila Verus

Txai Macedo faleceu em 15 de fevereiro, em Cruzeiro do Sul. Sua partida encerrou um ciclo de presença, mas não interrompe sua travessia. O rio continua. Seu legado de pioneirismo nas políticas indigenistas e extrativistas, em defesa da terra e do bem viver, junto com Txai Terri, no Acre e no mundo, segue vivo nas aldeias, nas reservas, nas organizações e nas novas gerações que continuam a defender a floresta e os povos que nela vivem. Permanece na ideia, hoje tão urgente, de que justiça social e justiça ambiental caminham juntas.

Permanece, sobretudo, como rio, em movimento, em memória e em continuidade.