A proteção da Terra Indígena Mamoadate ganhou um novo marco em fevereiro deste ano.
Pela primeira vez, Jaminawa e Manxineru realizaram juntos uma expedição de monitoramento territorial, no igarapé Mamoadate. A iniciativa tem peso histórico. Jaminawa e Manxineru convivem na mesma terra indígena, mas mantiveram, ao longo do tempo, um trabalho de monitoramento organizado de forma separada e independente um do outro. Mesmo quando atuavam no mesmo rio, cada equipe realizava o trabalho em trechos distintos, próximos às próprias aldeias. A expedição no igarapé Mamoadate consolida um movimento de aproximação, crucial para a proteção comum do território.

Por estar situada na faixa de fronteira entre o Brasil, no estado do Acre, e Madre de Dios, no Peru, a TI Mamoadate enfrenta dinâmicas transfronteiriças que impactam diretamente os povos do território. Entre as principais ameaças estão a atuação de madeireiras ilegais, invasões, atividades ilícitas, empreendimentos petrolíferos no lado peruano e propostas de abertura de ramais e estradas. Outra preocupação é o aumento de registros de aproximação de grupos indígenas em isolamento voluntário na região, que são conhecidos como Mashco Piro. Nesse contexto, fortalecer o monitoramento também através da união dos povos da TI é uma medida estratégica de segurança territorial.
A articulação para uma expedição começou em outubro do ano passado, na Oficina de Atualização do Plano de Monitoramento, realizada com o apoio da Comissão Pró-Indígenas do Acre e da Associação MAPPHA (Manxinerune Ptohi Phunputuru Poktshi Hajene). O processo ampliou o espaço de diálogo entre as aldeias e definiu encaminhamentos para a atuação conjunta. *Saiba mais sobre a Oficina neste link.
Branca Medina, coordenadora do Setor de Geoprocessamento da CPI-Acre e ponto focal da TI Mamoadate, ressalta:
“O território é um, é único, é dos dois povos e precisa da união deles para ser bem protegido.”
Segundo ela, a construção do Plano de Gestão Territorial e Ambiental e do Protocolo de Consulta já vinha promovendo essa aproximação. Nesta expedição, participaram as aldeias Betel, Cujubim e Salão, do povo Jaminawa, e Peri e Jatobá, do povo Manxineru. Antes da saída a campo, as equipes se reuniram com caciques, professores, agentes de saúde e monitores para planejar a atividade. Juraci Alves Jaminawa, monitor da aldeia Betel, na TI Mamoadate, explica que o planejamento é parte essencial do trabalho;
“Sempre que a gente faz uma expedição de monitoramento, a gente faz um planejamento com os monitores, com as aldeias, com os caciques, com a liderança, com os professores e com agente de saúde. Nessa etapa, definimos materiais, rotas e organização dos grupos.”
Foram formados quatro grupos de cada povo para percorrer diferentes trechos do igarapé Mamoadate, avaliar vestígios e registrar informações. A atividade transcorreu sem identificação de invasões ou cortes ilegais. Para Juraci, a atuação conjunta trouxe aprendizado:
“Foi a primeira vez que a gente fez um trabalho junto com os monitores Manxineru. Eles ensinaram algumas coisas que eles sabiam, e a gente também mostrou como a gente faz esse trabalho.” A troca de experiências contribuiu para qualificar os métodos de observação e os registros.

Joseima Manchineri, da aldeia Jatobá, na TI Mamoadate, participou da expedição e destacou a importância da presença das mulheres na atividade:
“Essa expedição que a gente fez com o pessoal do Jaminawa e do Peri foi importante para nós mulheres também. Aqui do Jatobá foram duas mulheres, do Peri foram cinco e do Jaminawa foi uma. É importante para nós conhecer como os homens andam, pegar chuva, chuva de noite. Fica um pouco difícil para nós, como mulheres, mas a gente aprende também. Se a gente vê rastro de mascho piro e invasão, é para ajudar os homens a defender o território, saber discutir e fazer relatório também. Para mim, o mais importante é isso.”
A TI Mamoadate foi demarcada em 1986 e homologada em 1991. Possui 313.646 hectares e está localizada nos municípios de Assis Brasil e Sena Madureira, no rio Iaco, afluente do rio Purus. No território vivem os povos Manxineru, da família linguística Arauak, organizados em 12 aldeias, e Jaminawa, da família linguística Pano, distribuídos em quatro aldeias.
O trabalho das equipes de monitoramento teve início em 2004, com oficinas de etnomapeamento, e foi atualizado em 2025 com a revisão do Plano de Monitoramento. A expedição conjunta reforça a segurança do território e amplia a capacidade de resposta diante das pressões que incidem sobre a terra indígena.