“É assim que a gente tem que ser: não se esconder do que a gente é.”

4º e 5º módulos da Oficina de Mulheres Indígenas, Gênero e Gestão Financeira. Foto: Ila Verus/CPI-Acre
Neste 5 de setembro, Dia Internacional da Mulher Indígena, a trajetória de 11 mulheres de diferentes povos do Acre revela como a formação e o fortalecimento da autonomia podem transformar caminhos dentro e fora dos territórios.
São rostos diferentes. Histórias que atravessam povos, aldeias e territórios distintos. Cada mulher chega carregando sua própria experiência, seus desafios, seus saberes e a realidade de sua comunidade. Mas, entre tantas diferenças, existe um objetivo que as aproxima: fortalecer a si mesmas para também fortalecer outras mulheres e seus territórios.
Foi a partir desse encontro que 11 mulheres indígenas dos povos Huni Kuĩ, Shawãdawa, Apolima Arara, Jaminawa Arara e Manxineru participaram dos 4º e 5º módulos da Oficina de Mulheres Indígenas, Gênero e Gestão Financeira, realizada pela Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre), entre os dias 13 e 25 de julho, no Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF), em Rio Branco.
Representantes das Terras Indígenas Jaminawa Arara do Rio Bagé, Mamoadate, Praia do Carapanã, Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu e Arara do Rio Amônia, elas chegaram de diferentes lugares, mas compartilharam um mesmo espaço de aprendizagem e construção coletiva.
Embora a formação reúna diretamente 11 mulheres dos povos Huni Kuĩ, Shawãdawa, Apolima Arara, Jaminawa Arara e Manxineru, , seu alcance vai muito além desse grupo. A proposta da oficina é que as participantes levem os conhecimentos e experiências construídos durante a formação de volta para suas comunidades e atuem como multiplicadoras nos territórios. Ao retornarem para suas Terras Indígenas, elas mobilizam outras mulheres para diferentes iniciativas, como atividades de artesanato, rodas de conversa, espaços de troca de saberes e ações relacionadas ao cuidado e ao fortalecimento das mulheres.
Dessa forma, cada participante se torna uma ponte entre a formação e sua comunidade. O conhecimento construído durante os encontros circula, encontra outras mulheres e pode se transformar em novas ações nos territórios. A perspectiva é que as 11 participantes alcancem muitas outras mulheres a partir de suas atuações nas comunidades. Considerando a mobilização de pelo menos outras dez mulheres por participante, esse grupo inicial pode se transformar em uma rede de pelo menos 110 mulheres alcançadas pelas ações e conhecimentos compartilhados. É essa capacidade de multiplicação que está no centro da formação: fortalecer mulheres para que elas também possam fortalecer outras mulheres, suas comunidades e seus territórios.
Desde 2023, a CPI-Acre realiza a formação como uma estratégia permanente para fortalecer a autonomia, a participação política e a atuação das mulheres indígenas em suas comunidades, associações e organizações. A iniciativa parte de um princípio que orienta a atuação da instituição desde sua criação, em 1979: os próprios povos indígenas devem ser protagonistas na construção de seus caminhos.
Ao longo da formação, gestão financeira, organização comunitária, comunicação, políticas públicas, participação política e protagonismo feminino foram temas que se encontraram com experiências concretas de vida. Mais do que aprender conteúdos, as participantes compartilharam histórias, dificuldades, conquistas e diferentes formas de ser mulher indígena em seus territórios.
De quem chegou com vergonha de falar a quem volta pronta para fortalecer outras mulheres
Professora, mãe e representante da Terra Indígena Arara do Rio Amônia, Antônia Luciana Marques Avelino participa da formação desde 2023 e chegou ao último módulo reconhecendo também uma transformação pessoal. No início, conta, tinha vergonha de falar. Preferia ouvir e carregava o medo de ser julgada. Ao longo da formação, encontrou espaço para se posicionar, compartilhar sua experiência e reconhecer a própria voz.

Antônia Luciana Marques Avelino. Foto: Ila Verus/CPI-Acre
“Essa formação é realmente importante, tanto para mim quanto para levar o fortalecimento para as mulheres da minha aldeia, Novo Destino. Eu estou aprendendo bastante coisa. Nós já estamos perdendo nossa cultura, nossa cultura já está totalmente fraca, e agora ela está sendo fortalecida cada dia mais. É muito importante para mim e para o povo todo, porque algumas coisas que a gente não sabia, aprendeu, e vamos levando esse aprendizado para o nosso povo. Eu nunca tinha participado de reunião por tanto tempo, e agora estou finalizando o quarto e o quinto módulo. Isso foi muito importante, foi gratificante na minha vida em tudo. Quando eu cheguei, eu não conseguia falar, ficava mais ouvindo, tinha vergonha de falar e medo de mangarem de mim. Mas agora eu já conheço bem, e é assim que a gente tem que ser: não se esconder do que a gente é”.
A experiência de Luciana se encontra com a de Catilane Varela, jovem do povo Shawãdawa, comunicadora, cineasta e representante da juventude da aldeia na Terra Indígena Arara do Igarapé Humaitá. Participando da oficina pela primeira vez, ela não pretende guardar para si o que aprendeu.
Para Catilane, cada mulher que encontrou durante a formação também trouxe uma história para ser levada de volta ao território.
“É muito importante o que eu vou levando de fortalecimento para as mulheres, porque aqui eu vou levando uma história de cada mulher que está participando da formação. Cada uma delas tem suas histórias de conquista e também de dificuldades, às vezes dentro da aldeia. Mas, através das histórias delas e da continuidade no trabalho, eu vou conseguindo levar isso para o meu território. Quando chegar lá, vou falar para as mulheres, e isso vai fortalecer o território Shawãdawa, as mulheres e os jovens que não querem sair da aldeia, para participarem mais, evoluírem e fortalecerem as mulheres. Porque as mulheres, hoje em dia, sofrem muito com o machismo. Então, daqui a gente já vai fortalecida. Tanto eu vou fortalecida como, quando chegar lá no meu território, vou fortalecer as mulheres. Tenho certeza disso”.
Formação que une teoria, prática e intercâmbio de experiências
A formação não se limitou à sala de aula. A metodologia da CPI-Acre combina momentos teóricos e práticos e valoriza o intercâmbio entre diferentes experiências como parte do processo de aprendizagem. Dentro dessa proposta, as participantes visitaram a Casa de Cultura Ourucuri, onde conheceram o trabalho do artesão Cesar Farias, conhecido como Zé Jarina, referência na produção de biojoias com sementes da floresta. A visita possibilitou conhecer outras formas de geração de renda, agregação de valor ao artesanato e valorização dos conhecimentos tradicionais.
A comunicação também entrou em cena. Em uma oficina prática de fotografia, as mulheres aprenderam técnicas de enquadramento, iluminação e composição para produzir imagens capazes de valorizar e divulgar o artesanato indígena. A fotografia, nesse contexto, tornou-se também uma ferramenta de autonomia e fortalecimento da economia das mulheres.
A formação também promoveu a troca de conhecimentos sobre produção e cuidado com as áreas produtivas. Em diálogo com Mayara Diógenes, assessora do Programa de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da CPI-Acre, as participantes conversaram sobre os cuidados necessários nas hortas, a identificação e prevenção de doenças que podem afetar a produção e estratégias para melhorar o cultivo nos territórios.
A programação incluiu ainda uma roda de conversa com Ângela Mendes, presidenta do Comitê Chico Mendes, sobre o legado de Chico Mendes, a defesa da floresta, os direitos das mulheres e o fortalecimento do protagonismo feminino.
As participantes também refletiram sobre políticas públicas, cidadania, voto consciente e a importância da presença das mulheres indígenas nos espaços de decisão e representação.
Para Malu Ochoa, assessora do Programa de Políticas Públicas e Articulação Regional (PPAR) da CPI-Acre, trabalhar com mulheres indígenas de diferentes povos é, antes de tudo, um exercício de escuta e aprendizado. Destaca que o conhecimento adquirido durante a formação se soma aos saberes que as participantes já carregam de seus próprios povos.
“Trabalhar em parceria com as mulheres indígenas, quando se trata de vários povos, é um momento de escuta, de ouvir essa diversidade de conhecimentos, de anseios, de sonhos e de experiências. Experiências que também se transformam em sabedoria e que são transmitidas entre gerações, pelas avós, pelas mães, pelos filhos e pelos netos. Elas têm esse papel fundamental de manter vivos os conhecimentos específicos de seus povos. O mais importante é ver como essas mulheres vêm se fortalecendo. O conhecimento é importante, mas elas já trazem consigo os conhecimentos de seus povos. Os outros conhecimentos vêm contribuir para esse fortalecimento, para que elas possam atuar na gestão e na proteção de seus territórios e também no fortalecimento da cultura de seus povos.”
Completa que a formação também amplia o acesso a informações sobre direitos e instrumentos de participação social. “A gente também leva informações sobre os direitos garantidos pela Constituição Federal, que contribuem para esse fortalecimento e para que elas possam enfrentar a diversidade e os desafios que existem dentro da nossa sociedade.”

Malu Ochoa, assessora do Programa de Políticas Públicas e Articulação Regional (PPAR) da CPI-Acre. Foto: Ila Verus/CPI-Acre.
Como parte das atividades, o grupo participou ainda da 2ª Roda de Memória, realizada pela Biblioteca Pública do Acre, em um momento de diálogo e valorização das histórias, experiencias e saberes compartilhados.
O conhecimento como ferramenta de autonomia
Para além dos conteúdos, a formação também produziu algo que não cabe em uma lista de temas: confiança para ocupar espaços, conhecimento para tomar decisões e ferramentas para fortalecer iniciativas nos próprios territórios.
Para Nelcilene Costa, gerente administrativa da CPI-Acre, acompanhar esse processo foi testemunhar o crescimento das participantes ao longo da formação.
“Encerrar esta formação é motivo de grande gratidão e satisfação. Como facilitadora da temática de gestão administrativa e financeira, foi inspirador acompanhar a evolução das mulheres indígenas em cada atividade, percebendo o crescimento da confiança e da compreensão sobre planejamento, organização, gestão e prestação de contas dos recursos. Ver esse aprendizado sendo construído de forma prática demonstra que o conhecimento transforma realidades. Tenho a certeza de que cada participante retorna ao seu território mais preparada para gerir iniciativas, fortalecer o artesanato a cultura e inspirar outras mulheres. Fico feliz por ter contribuído para essa caminhada e por testemunhar o protagonismo feminino se fortalecendo em cada encontro”.
Os 4º e 5º módulos marcam a conclusão do ciclo formativo desta turma. Mas o encerramento da formação não significa o fim do processo. Ao retornarem para suas comunidades, as participantes levam consigo os conhecimentos construídos, as experiências compartilhadas e a responsabilidade de colocar em prática aquilo que foi aprendido. Elas atuarão como pontos focais em seus territórios, contribuindo para iniciativas relacionadas à proteção territorial, à organização do artesanato, à segurança alimentar e a outras ações desenvolvidas em suas comunidades.
Uma nova turma dará continuidade à formação, ampliando o alcance da iniciativa entre mulheres indígenas de diferentes povos do Acre. Porque, quando uma mulher volta para seu território mais fortalecida, o conhecimento não termina nela. Ele circula, encontra outras mulheres, chega aos jovens, atravessa as comunidades e se transforma em ação.
- Foto: Ila Verus/CPI-Acre.
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- Foto: Ila Verus/CPI-Acre.
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